domingo, 7 de fevereiro de 2010

SALVE O SIMPATIA!


           No domingo de carnaval de 1985, eu estava na praia de Ipanema, tristinho, porque era caranaval e eu estava desenturmado numa cidade que eu acabara de chegar. E eu adoro carnaval, principalmente o de rua, onde nos largamos no meio da multidão e brincamos anônimos e somos todos literalmente iguais. Foi quando escutei ao longe, o som de uma bateria que vinha arrastando uma pequena multidão. Não pensei duas vezes, saí correndo em direção ao bloco e me perdi, ou melhor, me encontrei no meio do povo, digo, da burguesia de Ipanema. Era o primeiro desfile do "Simpatia é quase amor", que ontem completou 25 anos de desfile e arrastou milhares de foliões pela Vieira Souto, sob o comando da bateria do Mestre Penha, da qual tive a honra de fazer parte durante anos, tocando tamborim. Ontem eu estava lá de novo, com o meu tamborim. As imagens valem mais do que mil palavras. Salve o simpatia!
Eu e o meu tamborim!

Muito bom: "O simpatia pede passagem ou vale transporte"

Mestre Penha no comando.

  A maior concentração por metro quadrado, de gente bonita de todos os generos e cores do planeta!

A irreverência de sempre.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

OS NOMES DOS COMPOSITORES DE SAMBA ENREDO

         


          A safra de 2010, como eu já disse aqui, não é das melhores. É muita gente pra fazer um samba e creio, que é aí que a coisa empobrece, muita gente dando opinião. Mas o que eu mais gosto mesmo, é dos nomes dos compositores de samba enredo. Outro dia vi o Neguinho da Beija flor na televisão, dizendo que estava feliz com o samba escolhido para defender a escola este ano, porque um dos autores, dos cinco que escreveram ou simplesmente deram pitaco, era o compositor mais antigo da escola e que nunca havia ganho um samba em mais de vinte anos de disputa, seu nome? "Picolé da Beija flor". Você já tinha ouvido falar nesse cidadão que há vinte anos disputa e nunca ganha? Nem eu, daí que eu resolví pesquisar e descobrí outras pérolas como: "Brasil do quintal", que ganhou o samba do salgueiro com mais quatro; "Barbeirinho", "Mingau" e "Da lua", que faturaram o samba da Grande rio com mais "nove" parceiros; "Me leva" ganhou na Imperatriz; "Porkinho" na Porto da pedra; "Gugu das candongas"(o meu favorito) e "Barbosão", são dois dos "dez" compositores que faturaram na Ilha do governador; "Marcão R1 e Leandro R1" faturaram com mais tres, lá na Rocinha e perguntar não ofende, o que é R1?; "Da latinha", "Claudinho vagareza" e mais tres, ganharam na Estácio de Sá; e agora o record: "Doutor", "Ditão", "Bolão" e "Macumbinha", foram os campeões na Santa Cruz; "Balinha" e mais alguns faturaram na Caprichosos; "Popeye" e outros tantos no Império serrano; E por fim o fabuloso "Sardinha" com seus cinco parceiros, ganharam na Cubango. Se pelo menos os sambas fossem tão divertidos e criativos, como o nome dos seus autores, o carnaval 2010 seria uma maravilha, mas não são.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

NOEL DEVE ESTAR RINDO À TOA...


          Samba não ganha carnaval, mas é meio caminho andado. Ao longo da história dos desfiles das escolas de samba do Rio de janeiro, temos visto, principalmente na era sambódromo, de 1984 para cá, que um bom samba, daqueles que levantam a arquibancada e faz o povão cantar junto, empolga e leva a escola para as cabeças, que o diga o Salgueiro de 1993 com o ”explode coração”, que virou um hit nacional e acabou com um jejum de 17 anos sem títulos, da vermelho e branco da Tijuca. Nos últimos anos, o “Soy loco por ti America”, da Vila Isabel em 2006, é outro bom exemplo de que um bom samba é meio caminho andado, pois acabou dando à Vila o título daquele ano. A mesma Vila Isabel que neste ano de 2010, faz uma belíssima homenagem ao seu poeta maior, Noel Rosa, e vai levar para a avenida uma obra prima do Martinho da Vila, um samba moderno, sem rimas e refrões óbvios, de melodia e poesia impecáveis, e que no ensaio técnico do último domingo, já mostrou que vai dar o que falar, pois não só caiu na boca do povo, como nas graças dos componentes da escola. O curioso é que este é o único samba da safra de 2010 que não tem parceria. Algumas escolas chegaram ao absurdo de juntar dois sambas em um só, gerando uma parceria de doze e dez pessoas, como é o caso da Grande Rio e da União da Ilha, respectivamente, e que resultou em sambas pobres e confusos, como a maioria dos sambas de enredo deste ano, com exceção apenas aos sambas da Porto da pedra e da Viradouro, ambos os sambas escritos "apenas" por tres compositores.  A Vila não, precisou apenas de um gênio para homenagear outro, numa prova inequívoca de que quantidade não é qualidade. Abrindo uma exceção, transcrevo abaixo a poesia do Martinho, pois Noel deve estar rindo à toa pelas ruas de Vila Isabel.

Vila isabel 2010.
Compositor: Martinho da Vila



Se um dia na orgia me chamassem
Com saudades perguntassem
Por onde anda Noel
Com toda minha fé responderia
Vaga na noite e no dia
Vive na terra e no céu
Seus sambas muito curti
Com a cabeça ao léu
Sua presença senti
No ar de Vila Isabel
Com o sedutor não bebi
Nem fui com ele a bordel
Mas sei que está presente
Com a gente neste laurel

Veio ao planeta com os auspícios de um cometa
Naquele ano da Revolta da Chibata
A sua vida foi de notas musicais
Seus lindos sambas animavam carnavais
Brincava em blocos com boêmios e mulatas
Subia morros sem preconceitos sociais

Foi um grande chororô
Quando o gênio descansou
Todo o samba lamentou
Ô ô ô
Que enorme dissabor
Foi-se o nosso professor
A Lindaura soluçou
E a Dama do Cabaré não dançou
Fez a passagem pro espaço sideral
Mas está vivo neste nosso carnaval
Também presentes Cartola
Araci e os Tangarás
Lamartine, Ismael e outros mais
E a fantasia que se usa
Pra sambar com o menestrel

Tem a energia da nossa Vila Isabel
Tem a energia da nossa Vila Isabel










domingo, 31 de janeiro de 2010

SALVE A BANDA DE IPANEMA!


          Em março de 1964, logo após ao carnaval, as forças armadas, tomaram o poder e a ditadura militar governou o país por mais de vinte anos. No ano seguinte, 15 dias antes do carnaval, em Ipanema, Rio de janeiro e alto-falante desta nação, foi criada a Banda de Ipanema, como o primeiro grito de rebeldia, àquela ditadura que proíbia tudo, principalmente o livre direito de expressão de um povo. Foi-se a ditadura e a banda de Ipanema continua mandando no pedaço, abrindo oficialmente o carnaval de rua do Rio e porque não dizer, do Brasil.
          Mais uma vez, dezenas de milhares de cariocas de todas as partes do mundo, saíram pelas ruas do bairro mais charmoso do Rio, para esbanjar alegria e celebrar a nossa festa maior, o carnaval. Homos, heteros, "bis", "trans", "pans", jovens, velhos, crianças, gente de todas as cores e tribos, cantaram e dançaram ao som de antigos e eternos sambas e marchinhas, numa demonstração única de democracia e civilidade. Salve a Banda de Ipanema, no seu quadragésimo sexto desfile! Que seja assim para sempre e que a alegria reine entre nós até a quarta feira de cinzas. Evoé!




sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

NO CLARÃO DA LUA

Letra e música de Ricco Duarte
gravada nos cds "Tudo é música"e "Menino buliçoso"

NUMA DESSAS NOITES DE UÍSQUES
BEIJOS E BOLEROS E OUTROS AIS
ONDE O CORAÇÃO DANÇA TWIST
SAMBANDO BONITO E TCHÁ TCHÁ TCHÁS
NUMA NOITE DESSA
NO CLARÃO DA LUA
REFLETIDO NO TEU OLHAR
TAVA FRIO A BEÇA
E EU SOZINHO NA RUA
PROCURANDO SEM ENCONTRAR

NUMA DESSAS NOITES DE IR A PIQUE
DE IR BATENDO FORTE DISPARADO
ENTRANDO NA CURVA A CENTO E VINTE
COMO UM LOUCO DESESPERADO
NUMA NOITE DESSA
NO CLARÃO DA LUA
REFLETIDO NO TEU OLHAR
TAVA FRIO A BEÇA
E EU SOZINHO NA RUA
PROCURANDO SEM ENCONTRAR


NUMA DESSAS NOITES VÍDEO CLIP
NOITES DE ALAMBIQUES E TUDO O MAIS
BEBENDO BOLEROS E UÍSQUES
SEM QUERER SABER DE MAIS NADA
NUMA NOITE DESSA
NO CLARÃO DA LUA
REFLETIDO NO TEU OLHAR
TAVA FRIO A BEÇA
E EU SOZINHO NA RUA
PROCURANDO SEM ENCONTRAR

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

RELAXANTE MUSCULAR

         

          Estávamos eu e um amigo meu, andando pelas ruas de Copacabana a cerca de dois anos atrás, quando em plena luz do dia, vimos um homem, que não parecia ser um mendigo, caído na calçada. Ao seu lado, de pé, estava uma senhora que aparentemente conhecia aquele homem, pois o mandava levantar, tomar vergonha na cara e ir para casa pois ele tinha mulher e filhos esperando por ele. Era um cidadão comum, pai de família, bêbado, jogado no chão como um saco de lixo. Meu amigo ao ver aquela cena, me perguntou se eu já tinha visto algum maconheiro naquela situação. Pensei rapidamente e como ex usuário de maconha, cheguei a rápida conclusão de que só o álcool ou drogas pesadas como a cocaína ou o crack, podem levar o ser humano a um estado de degradação como aquele. Hoje em dia, estudos médicos comprovam que a maconha pode ajudar no tratamento de algumas enfermidades. Na Holanda, desde novembro de 2004, as farmácias estão autorizadas pelo governo, a vender maconha sob prescrição médica, para o tratamento de doentes com AIDS, câncer, esclerose múltipla e síndrome de tourette (que provoca tiques e movimentos involuntários). No estado da Califórnia, nos Estados Unidos, o seu uso é legalizado para fins medicinais, desde 1996. No Brasil, até o presidente Fernando Henrique já se declarou a favor da descriminalização da maconha e a sua liberação para uso medicinal está sendo estudada. Para mim, a maconha sempre foi um relaxante muscular e nunca a considerei como droga. Com a maconha, eu nunca fiquei violento ou agressivo, como já fiquei algumas vezes, depois de uma noite de bebedeira por exemplo, nem nunca vi ninguém vomitando banheiros, salas ou carros, por ter usado maconha. Particularmente, hoje não uso mais, primeiro porque o cheiro as vezes me dá náuseas, depois porque a sua comercialização está infelizmente, diretamente ligada ao cartel do tráfico de drogas pesadas, e comprar maconha na boca seria o mesmo que colaborar com tráfico e as suas inúmeras conseqüências. Por outro lado, descriminalizar o uso da maconha e liberar o seu uso, ainda que para fins medicinais apenas, não afetaria o caixa das bocas, pois em relação às outras drogas, o preço da maconha é infinitamente inferior. Então porque não descriminalizá-la ou legalizar o seu uso para fins medicinais? Vai usar quem quer e quem precisar usar, e certamente não vamos ver campanhas do tipo, “se fumar maconha não dirija”, ou “a maconha tem milhares de substâncias tóxicas” como o cigarro por exemplo, que causa inúmeras doenças crônicas e fatais. Mesmo não usando mais, continuo convicto de que maconha não é droga, é relaxante muscular.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

HOMOFOBIA NÃO! (parte 2)


Ainda tocado com o ocorrido no Metrô do Rio de janeiro no último sábado, consegui com o companheiro ambientalista Paulo Rocha, o endereço do site em que podemos não só votar contra a homofobia, como também, podemos fazer chegar aos 81 senadores o nosso apoio ao projeto de lei (PLC 122/06), que propõe a criminalização da homofobia.
Participem, votem, envie para os amigos. A união faz a força.

domingo, 24 de janeiro de 2010

HOMOFOBIA NÃO!


          Ontem, no metrô do Rio de janeiro, em um dos vagões no sentido zona sul, a altura de Copacabana, presenciei a seguinte cena: Uma mulher se dizendo estar grávida, acompanhada da sua filha, uma criança de pelo menos oito anos, começou a agredir verbalmente a um rapaz, por ele não ter cedido o lugar para ela. Alegando estar grávida, ela teve um ataque de homofobia, desfiando todo o repertório de adjetivos pejorativos destinados aos homossexuais do sexo masculino. O rapaz que estava bem vestido e tinha a aparência e atitude bastante masculina, escutava incrédulo os impropérios mais baixos e sujos, capazes de sair apenas da mente e da boca dos desqualificados como aquela senhora, que para dizer o mínimo, teve um comportamento das mais baixas e pobres criaturas, oriundas dos subterrâneos da humanidade, embora estivesse igualmente bem vestida, fosse jovem e tivesse até alguma beleza no rosto, pois a alma daquela mulher, inflada de um ódio pela vida alheia, era de uma horripilante feiúra. Como o rapaz demorou a reagir, reagimos nós, os outros passageiros, pedindo que ela se calasse, que respeitasse a sua filha e as outras pessoas no vagão, entre elas crianças, senhores e senhoras de idade e até turistas estrangeiros. Ameaçamos que ela poderia ser presa por homofobia. Foi quando ela, se sentindo acuada, se calou, pediu desculpas e colocou o seu rabo demoníaco entre as pernas. Mas já era tarde. Na minha estação de destino eu desci e deixei revoltado, o trem seguir viagem, com as pessoas daquele vagão ainda indignadas e esbravejando contra aquele vestígio de ser humano, que infelizmente vai colocar um outro ser no mundo, sabe-se lá de que pai. A sociedade brasileira e mundial, já está cansada desses desmandos. Temos que dar um basta a homofobia, como fizemos ontem, cidadãos cariocas de todos os lugares do mundo, no metrô do Rio de janeiro, uma cidade que recentemente foi eleita como a cidade mais feliz do mundo e como o melhor destino gay no planeta, batendo cidades como Sidney na Austrália e Nova Iorque, nos Estados Unidos. HOMOFOBIA NÃO!




quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

SAUDAÇÕES ECOLÓGICAS

          Era uma tarde de sol primaveril, quando milhares de sonhadores abraçaram a lagoa Rodrigo de Freitas, coração da cidade do Rio de janeiro, para apoiar a candidatura do Fernando Gabeira ao governo do estado. O ano era 1986 e lá se vão 24 anos. Naquele ano, pouco se falava ou se sabia a respeito do partido verde. A causa ambientalista era um problema de poucos. O maior medo era o buraco na camada de ozônio, que estava crescendo a cada dia. Naquele ano fizemos passeatas na Avenida Rio Branco, comícios na Cinelândia, fomos chamados de loucos, maconheiros, bichas e desocupados. Naquele ano, o partido dos trabalhadores, hoje no comando do país, ainda andava de mãos dadas com a então pouco conhecida causa ecológica. E o Gabeira chegou em terceiro lugar, com mais de quinhentos mil votos, conseguidos sem absolutamente nenhuma grana, apenas com o barulho que nós, os loucos, bichas, maconheiros e desocupados, como fomos chamados, fizemos nas ruas do Rio. Lá se vão 24 anos, quase duas décadas e meia depois, o mundo virou de cabeça para baixo, a população mundial quase dobrou, e o buraco na camada de ozônio então, nem se fala. Nessas duas décadas e meia assistimos quase que passivamente, a temperatura do planeta aumentar a cada dia, devido principalmente à emissão de gases poluentes na atmosfera, produzidos pela multiplicação desenfreada das indústrias ao redor do mundo, e pelo desmatamento das nossas florestas, impulsionado pelo descontrole ganancioso do ser humano, em busca do progresso e do possível bem estar, que este progresso descontrolado poderia trazer à população. Duas décadas e meia depois, vemos que o resultado desse progresso foi o bem estar das contas bancárias dos poderosos, que poluíram e desmataram o nosso planeta e que estão se lixando para a população. Duas décadas e meia depois, estamos vendo a cada dia que passa, mais e mais catástrofes ambientais acontecendo. Terremotos, tempestades, nevascas, tufões, furacões, que vão interrompendo sonhos, ceifando milhares e milhares de vidas, causando uma destruição, que em muitos casos, levará anos para ser reparada. O planeta está dando o seu grito de alerta, e a sua resposta. Causa e efeito.
          Em 1986 fiz o meu trabalho voluntário, abracei a Lagoa, fui às passeatas e aos comícios, e o pouco que eu sabia, tentava passar para aqueles que eu tinha certeza, de que não sabiam sequer o significado da palavra ecologia, motoristas de ônibus e de taxi, porteiros de prédios, ambulantes, empregadas domésticas, gente do povo. Fiz aquele trabalho intuitivamente, tentando plantar a sementinha verde. Desses 24 anos, os últimos oito anos, eu fiquei fora do país, indo e vindo, e me afastei do campo de batalha, mas não do combate. Andei pelo mundo, trabalhando com a minha música, e pude ver de perto que o mal que nos aflige aqui, aflige a todos. No dia 05 de outubro de 2008, desembarquei no Rio a tempo de votar no meu candidato de sempre, o Fernando Gabeira, para prefeito do Rio de janeiro. Quase ganhamos. Pude ver com alegria, ao sair do portão de desembarque, as garotas que trabalham nos pontos de taxi do aeroporto, vibrando e fazendo abertamente, campanha para o candidato verde. O povo não é bobo nem se deixa enganar facilmente. “A semente deu frutos e se multiplicou”, pensei comigo em silêncio e feliz. Hoje estou oficialmente filiado ao partido, assumo a militância, apoiando incondicionalmente não só o partido, mas como também os seus candidatos, como sempre fiz, mesmo a distancia, porque entendo que a luta pela preservação do meio ambiente, é a única saída para a melhoria da qualidade de vida do planeta. Saudações ecológicas.



terça-feira, 19 de janeiro de 2010

DE PAU A PIQUE

FEITO DE PAU A PIQUE
O BARRACO ROLAVA
POR QUALQUER MOTIVO
TEMPO BOM
TEMPO NUBLADO
BRISA
VENTANIA
CHUVA
CHUVISCO
TEMPORAL
CONTAS EM DIA
E AS ATRASADAS ENTÃO...
LOGO COMEÇAVA A GRITARIA
E O TEMPO FECHAVA
SEM DAR O MENOR SINAL
DE REPENTE
-VOCÊ É ISSO
-VOCÊ É AQUILO
-VOCÊ FEZ ISSO
-VOCÊ FEZ ISSO E MAIS AQUILO
-VOCÊ É
-VOCÊ FEZ
-VOCÊ NÃO VALE NADA!
TUDO ASSIM POR NADA
SEM A MENOR RAZÃO.
FEITO DE PAU A PIQUE
O BARRACO DAVA UM XILIQUE
E JOGAVA O AMOR NO CHÃO

domingo, 17 de janeiro de 2010

O FARDO DO POETA

CANTO MELHOR
QUANDO ESTOU TRISTE
ALMA DE FADISTA
CORAÇÃO DE AMÁLIA
OLHOS DE SAUDADE
E O DEDO EM RISTE.

NESSES MOMENTOS
MEU CANTO FAZ A FESTA
OLHOS CERRADOS
E O CORAÇÃO QUEIMANDO
DEIXANDO QUE AS NOTAS
EMBALEM O FARDO DO POETA.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

"PENSE NO HAITI, REZE PELO HAITI"

          Por que o Haiti? que em inglês se pronuncia "rêiti", cuja sonoridade lembra a palavra, hate, que traduzindo para o português significa ódio. Por que a natureza divina, ou seria satânica, uma vez que o voodoo é a religião mais popular do país, odeia tanto aquela faixa de terra da ilha de Hispaniola, um dos primeiros pontos da América, a serem colonizados por Cristovão Colombo, quando este por ali chegou. Porque? Se a mesma ilha abriga a próspera República Dominicana, enquanto que o Haiti é o país mais pobre das américas e é um dos mais pobres do mundo. Por que o Haiti? Ex colonia francesa que há séculos sobrevive não só às interpéries da natureza, como também aos desmandos de seus governantes e ditadores. Um país miserável, cujo povo musical e simpático tem os olhos grandes e tristes, e que eu tive a oportunidade de visitar algumas vezes, quando trabalhava como músico, nos navios de cruzeiro da Royal Caribbean. A Royal comprou um pedaço de terra em Labadee, a duas horas de carro da capital Porto Princípe e ali montou o seu circo, um balneário para que os passageiros se divertissem, pensando estar em um paraíso caribenho. Ali ficávamos algumas horas desfrutando daquele mar lindo e das muitas atividades esportivas organizadas pela empresa. Ali escutávamos a música mágica do lugar, assistíamos a shows folclóricos, comprávamos o artesanato local e íamos embora no final do dia felizes da vida, deixando para trás aqueles olhares tristes de quem vive na miséria todos os dias. Ali eu conheci Papi, um artista local que fazia acrobacia e que era apaixonado pelo Brasil, como quase todos os haitianos. Uma vez Papi me convidou para ir a Porto Princípe, para ver a miséria mais de perto, mas o tempo era curto. Ele tinha que ganhar uns trocados para sustentar a sua família, fazendo as suas espetaculares piruetas, e sempre terminavámos adiando a visita a capital. Mas a miséria estava logo ali, atrás da cerca que circundava o balneário, longe dos olhos dos turistas. Ali já se podia ver as casas miseráveis, o povo pedindo esmola, agarrado à cerca fortemente guardada pela polícia local. Estará Papi vivo agora? Estarão vivos os familiares do Pierre? Um oficial haitiano que vive em Miami, e que me levou até o aeroporto quando eu tive que voltar ao Brasil, depois de ter sido operado de apendicite. Estarão vivos os familiares do Dr. Maurice, médico haitiano que me examinou em Miami logo após a cirurgia? Ele me contou que os haitianos amam tanto o Brasil, que dois deles cometeram suicídio quando o Brasil  foi eliminado  da copa de 2006 pela França, país que eles odeiam, por questões óbvias, apesar de terem herdado a bela língua do seu antigo colonizador e opressor. A minha experiência com os hatianos eu menciono em um trecho de "Jaime, o marinheiro", romance que escrevi a bordo de um dos navios, contando como é a vida em um navio de cruzeiro e que eu transcrevo a seguir, rezando pelo Haiti, pensando no Haiti.

Trecho do romance "Jaime, o marinheiro"

          Chovia em Miami, quando um funcionário da America Safety, passou no hotel para me levar para fazer a imigração e de lá para o aeroporto. Ele era um haitiano alto e magro, que me confirmou a história dos suicídios que os seus compatriotas cometeram, quando a seleção brasileira foi eliminada da copa do mundo da Alemanha. O Haiti é um país paupérrimo, que foi colônia francesa e que vive em constante estado de sítio, e o exército brasileiro, foi mandado para lá pelas nações unidas, como uma força de paz, para tentar manter a ordem e a estabilidade política no país. Os brasileiros certamente levaram não só a paz, como também a nossa simpatia e solidariedade, que conquistou de imediato o coração do povo haitiano, daí a sua paixão desmedida pelo Brasil.
          A Royal Caribbean, comprou um pedaço de terra no Haiti, chamado Labadee, e ali implantou uma espécie de balneário privado, onde os navios da Companhia costumam parar, para diversão de passageiros e tripulantes. Além dos limites daquele balneário, não podemos passar. Do outro lado está a miséria e a fome, e isso não interessa nem aos passageiros nem a nós tripulantes ver. Eu havia estado em Labadee algumas vezes e fomos conversando sobre o Haiti e o Brasil até o aeroporto, eu e o Pierre, o oficial haitiano que me escoltou até o balcão do check in da American airlines, para se certificar de que eu realmente iria deixar o país.


Eu também fiz o meu vooduzinho...

Essa camisa eu dei ao meu amigo Papi de presente.

                                              Papi se preparando para mais uma acrobacia.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

DEIXEM A XOXOTA CAIR NO CHÃO

           No sábado que vem, dia 16, tem a abertura do carnaval de rua do Rio de janeiro na Lapa. Adoro carnaval de rua e o do Rio, a cada ano que passa, cresce mais. O carioca é fanfarrão por natureza e carnaval é a festa do ridículo, da esculhambação, onde tudo é permitido e não há em absoluto, censura. Recentemente estive em Maceió e em uma tarde, passeando pelo centro da cidade, escutei em uma barraca de cachorro quente, o hit nordestino para 2010, o “xoxota no chão”. Não, não era um trocadilho. Segundo a letra, a xoxota literalmente vai ao chão, “limpando o cimento e polindo a cerâmica”. Fiquei com aquilo na cabeça, pensando que ali estava um bom título para um bloco de carnaval, pois se tem uma festa popular que deixa a todos, homens e mulheres, com a xoxota no chão, essa festa é o carnaval. O que mais me diverte é o espírito de crítica e esculhambação que a festa proporciona e aqui eu reservei alguns nomes espetaculares, dos blocos cariocas que vão desfilar pelas ruas da cidade, de norte a sul, de leste a oeste: “os imóveis”, genial, um bloco de Copacabana que não desfila e que deve ser primo irmão do já tradicional “concentra mas não sai”. Os jornalistas criaram o já famoso “imprensa que eu gamo”. Tem o “não mexe que fede” do Leme, que tem o seu similar em Ipanema, o impagável “que merda é essa?”. Tem o “empurra que pega”, o “cachorro cansado”, o ”rola preguiçosa” de Ipanema, que tem o seu similar lá em Vaz lobo, o “rola cansada” e seguindo o mesmo tema da genitália masculina, tem o “encosta que ele cresce”, o “é pequeno mas balança”, o ”virilha de minhoca”,"ïncha rola" e o “balanço do pinto”. Os de apelo sexual quase explicito são muito bons. Tem o tijucano “já comí pior pagando”, o “chupa mas não baba”, o “se me der eu como”, o “empurra que entra” e o meu favorito, “se não quiser me dar, me empresta”, de Ipanema, esse é muito bom, mesmo por que, como diz a turma lá da Praça seca, “lavou tá novo”. Tem ainda o “assa o pão mas não queima a rosca”, o ”espreme que sai”, o “fogo na cueca” e o bloco do instituto Benjamim Constant, o instituto dos cegos, o genial “beijamim no escuro”. Enfim, tem bloco para todos os gostos e tendências, sem falar nas bandas espalhadas por toda a cidade. Acessem o site da Riotur(www.riodejaneiro-turismo.com.br) escolham o seu bloco, caiam na folia e deixem a xoxota cair no chão. Mas não esqueçam de usar camisinha e se forem beber, deixem o carro em casa e vão a pé, de taxi, de ônibus, de metrô...

domingo, 10 de janeiro de 2010

RECARREGAR

TE CARREGO NO COLO
ABRAÇADO BEM JUNTO AO PEITO
PARA QUE NÃO SINTAS FRIO
OU QUALQUER OUTRA COISA
QUE LHE DESAGRADE


TE CARREGO COMIGO
PARA QUE NÃO ME ESQUEÇAS
PORQUE TE AQUECEREI
NAS NOITES MAIS FRIAS
E NOS FINAIS DE TARDE


TE CARREGO NA VIDA
PORQUE VOCÊ ME RECARREGA
COM O TEU AMOR SEM REGRAS
E ACENDE O MEU DIA
COMO UM SOL QUE ME INVADE


EU TE CARREGO
E VOCÊ ME RECARREGA
NAQUELAS HORAS VAZIAS
DURANTE AS MONOTONIAS
CADA UM FAZENDO A SUA PARTE

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

QUEM AVISA AMIGO É.

          Ano novo, vida nova, esperanças renovadas. Passados oito dias do ano de 2010, os fenômenos metereológicos, intensificados pelo aquecimento global continuam sem dar trégua. Logo na madrugada da virada do ano, a natureza mandou ao mundo todo um aviso de que não está brincando. Só em Angra dos reis, foram 52 vitimas fatais, nos deslizamentos ocorridos na enseada do bananal na Ilha grande e no morro da carioca, centro de Angra. Outras tantas mortes aconteceram também em Juiz de fora e no interior de São Paulo, onde a cidade histórica de São Luis do Paraitinga foi parcialmente destruída. No Rio grande do sul, uma ponte foi arrastada pela força das águas, vitimando várias pessoas que estavam passando por ela naquele instante. Os temporais de janeiro já são quase que uma tradição, mas os do início deste ano, dão mais uma vez, sinais de que a coisa é séria. No resto do mundo a situação não é diferente. Nevascas intensas, jamais vistas anteriormente, castigam países do hemisfério norte, especialmente os maiores poluidores do planeta, a China e os Estados Unidos. O planeta está mandando mais um aviso, e quem avisa amigo é.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

MELQUIOR, BALTASAR E GASPAR

          Hoje é o dia dos santos reis! Já dizia o grande Tim Maia. Reza a lenda que a dois mil e dez anos atrás, tres reis partiram do oriente, guiados por uma estrela, até o local aonde estava anunciado o nascimento do salvador, o rei dos judeus, Jesus. Ofertaram ouro, incenso e mirra ao recém nascido, nascendo assim a tradição de se trocar presentes na noite de natal, ou em algumas regiões do planeta, no dia seis de janeiro, o dia dos santos reis.
          Da minha infância em Salvador na Bahia, guardo as mais alegres lembranças deste dia, quando a festa da Lapinha, bairro tradicional de Salvador, comemora o dia de reis, a partir da meia noite, com ternos , ranchos e populares cantando e dançando a noite toda. Como são reis, a sua simbologia está ligada à boa sorte e a fortuna e é costume se fazer várias simpatias neste dia para atrair prosperidade.
          Há mais de vinte anos, conheci o Augusto Machado, que era amigo de um amigo meu, e do qual nunca mais tive noticias. O Augusto é daquelas pessoas iluminadas, que passam pelas nossas vidas para nos ensinar coisas boas. Dentre as muitas delicadezas que guardei dele, uma pode ser simplória, mas guardo e repito religiosamente todos os anos, e como me foi dada de graça, repasso aqui para que sejam felizes como o Augusto com certeza é.
          Eu vivia numa pindaíba de dar dó, morando de favor na casa de amigos, fazendo contas para fechar o mes no azul. Aí o Augusto, em um dia de reis, me ensinou uma simpatia, dizendo que desde que ele começou a fazer a tal simpatia nunca mais ele tinha passado apêrto. E ela consiste no seguinte: pegue uma romã, parta ao meio, retire tres sementes, encha uma taça com vinho branco, e de posse das tres sementes e da taça de vinho suba em uma cadeira ( não ria que a coisa é séria). Chupe uma semente de cada vez, guarde o caroço e tome um gole do vinho dizendo com fé, "Melquior, Baltasar e Gaspar, tragam o meu dinheiro para cá", e bata tres vezes no bolso da calça ou saia que estiver usando, depois dê tres pulos ( a cadeira tem que ser forte e resistente ), depois de fazer issso tres vezes, guarde os tres caroços da romã em um papel virgem, branco, na sua carteira. No ano seguinte, coloque, os tres caroços numa planta, mato ou jardim e repita tudo de novo.
           Pelo sim pelo não, mal não faz e desde então, assim como o Augusto Machado, eu sempre paguei as minhas contas em dia, viajei o mundo todo, comprei minha casa própria e etc, etc. Feliz dia de reis para todos vocês.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

SUBINDO A RIO BRANCO.

          O ano exatamente não me lembro, o que eu me lembro é que estavámos no início dos anos oitenta, quando eu subi a Avenida Rio branco pela primeira vez, centro do Rio de janeiro, no sentido Candelária/Cinelândia. Naquele dia eu me senti um garoto do interior, perdido, feliz e deslumbrado no meio daquela selva de pedra, cheia de gente de todas as cores. No meio daquele vai e vem eu resolvi fazer um samba, um samba de amor ao Rio. Passado algum tempo, decidido a ser cantor e sem conhecer ninguém que me pudesse abrir as portas, descobri que havia um bar no bairro de Botafogo, o Beco da pimenta, que tinha este nome para homenagear a pimentinha Elis Regina, e que todas as segundas, promovia uma espécie de show de calouros, cujo premio para o vencedor da noite, era fazer uma temporada de shows naquela casa noturna, que na época gozava de um certo prestígio. Peguei o meu violão e apareci no bar disposto a ganhar. Não havia jurados. a escolha era feita através do "palmômetro", ou seja, o público elegia o vencedor da noite através dos aplausos e como quase todos os concorrentes eram da cidade, as torcidas adversárias eram fortes, pois os outros candidatos a artista levavam os parentes, amigos e aderentes para torcer por eles. Eu não conhecia praticamente ninguém no Rio, então levei o Celino, um amigo baiano que dividia um apartamento comigo na época. Mas o bom carioca não resiste a um bom samba, e o meu era bom e se derramava de amores pela cidade. Dobrei as torcidas adversárias, ganhei o premio e de lá prá cá não parei mais de cantar de bar em bar por esse mundo de meu Deus. A letra de Subindo a Rio Branco reproduzo aqui, com saudade de um tempo em que não havia celular, internet, bailes funk e o Rio de janeiro ainda era uma cidade, por assim dizer, pacata, em pleno anos oitenta.



SUBINDO A RIO BRANCO
LETRA E MÚSICA DE RICCO DUARTE


DA CANDELÁRIA A CINELÂNDIA
VOCÊ JÁ VIU COMO É BONITO
ENXERGAR O AZUL DO CÉU?
UM FORMIGUEIRO
FUMAÇOLÂNDIA
ONDE TODO BRASILEIRO
VESTE UM TOM PASTEL
NO CORRE CORRE
DESSA FOLIA
VAI A NOITE VEM O DIA
E TODO MUNDO QUER SAMBAR
POIS O RIO É DE JANEIRO
CORRE O ANO INTEIRO            
E SE PODE NAVEGAR.
SUBINDO A RIO BRANCO ASSIM
EU CHEGO MAIS PERTO DO MAR
SONHANDO EM PODER CONSEGUIR
CHEGAR NO ALTO DA GLÓRIA.

domingo, 3 de janeiro de 2010

PALAVRAS DE AMOR.

        

                                                 A família querida, reunida na virada do ano


           De volta ao Rio de janeiro, a cidade maravilhosa, depois de passar dias maravilhosos, com a familia do meu irmão em Maceió, onde sobrinhos, cunhada e irmão, são muito mais que parentes, são os meus amigos verdadeiros e queridos, desejo com o meu coração cheio de saudade e agradecimento, que o mundo inteiro, neste ano que se inicia, diga e escute mais, muito mais, palavras de amor, todos os dias.


A PALAVRA DE AMOR



Palavras são como gotas d’água
A procura da sentença certa.
As vezes a sentença é de morte
E se faz um corte com a faca cega.
Tem palavras que unem o sul e o norte
As que dão voltas
E as que seguem em linha reta.
As palavras gotas de sereno
São as minhas favoritas
Caídas da madrugada
Fugidas de uma possível noite escura
Para dizer que nada
Nada como um dia após o outro
Para descanso da lua
E para os louros de um sol intenso.
Tem as palavras zig zag
De quem dirige bêbado.
As de almanaque
As de prozac
E as de quem dá tiro a esmo.
Mas a palavra de amor é direta
E atinge como uma flecha
O doce coração amado
Mesmo que ele seja velho e desdentado
Mesmo que ele escute pouco
Não enxergue direito
E bata assim distraído
Quase parado
Pensando que não tem mais jeito.
A palavra de amor é a que te salva
A que te estende a mão
Com todos os acentos
Porque a palavra de amor é cachoeira
Um rio que corre infinito
Para os oceanos da eternidade
É palavra que não se parte
Que não chega tarde
Que molha os olhos
Para enxaguar a alma
E assim permanecer inteira
Liberta!
Portas e janelas
Apontando para o horizonte
Pois a palavra de amor é fonte
De uma nascente que nunca seca.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FELIZ 2010!

          Estou na linda e ensolarada Maceió, passando as festas de final de ano com a maravilhosa familia do meu querido irmão Lula, o Duarte. E desta cidade iluminada, cujo mar tem um tom verde esmeralda único, as praias e as lagoas são belissimas e o povo é educado e hospitaleiro, envio para todos os meus amigos, leitores, seguidores e afins, os meus melhores votos de paz, saúde, prosperidade e alegria de viver, no ano de 2010. Que o próximo ano seja pleno de realizações positivas para todos nós. Amém.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O ENCONTRO DESENCONTRADO

ELE AINDA GOSTAVA DELA
QUANDO CONHECEU O OUTRO
QUE NÃO GOSTAVA DE NINGUÉM.
ELE NÃO QUERIA FICAR SOZINHO
E COMO ELA NÃO GOSTAVA MAIS DELE
ELE ACABOU GOSTANDO DO OUTRO.
O OUTRO POR SUA VEZ
TERMINOU GOSTANDO DELE TAMBÉM
EMBORA NÃO QUISESSE GOSTAR DE NINGUÉM.
ASSIM PASSARAM OS DIAS
ELE CHEGAVA QUANDO QUERIA
ENQUANTO O OUTRO NÃO ESPERAVA
E SE ESPERAVA
ELE NÃO APARECIA.
QUANDO ELE APARECIA
O OUTRO SORRIA
DEPOIS CHORAVAM
E ELE SUMIA
DIA APÓS DIA.
ASSIM PASSARAM OS DIAS
SE HAVIA ENCONTRO MARCADO
A LIGAÇÃO CAÍA
A BATERIA ARRIAVA
A CONEXÃO DESAPARECIA.
QUE ENCONTRO MAIS DESENCONTRADO
O CARA E O SEU NAMORADO
QUE VIVIA SONHANDO ACORDADO
ENQUANTO ELE AINDA DORMIA

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

PARES

TUDO O QUE VEJO
ENXERGO COM OS TEUS OLHOS
CURIOSO O AMOR
QUE VÊ TUDO AOS PARES
QUATRO OLHOS
QUATRO MÃOS
DUAS BOCAS
UM ABRAÇO.
APRENDI A TE AMAR TE VENDO
ESCUTANDO A TUA VOZ DIZENDO
EU TE AMO.
AGORA NÃO SEI ESTAR LONGE DE TI
SEM ESTAR CONTIGO
VENDO POR TEUS OLHOS
ESCUTANDO POR TEUS OUVIDOS
BEIJANDO A TUA BOCA
E TE ABRAÇANDO A ALMA.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

FELIZ NATAL TODOS OS DIAS!

       


         "Já faz tempo que eu pedi, mas o meu papai noel não vem". Assim dizia a canção natalina que embalava as noites de natal da minha infância. Acho que essa imagem de um pai que nunca chega para realizar o desejo do filho, me fez odiar os natais. Quando eu peguei a minha mãe colocando os presentinhos no sapatinho aí então foi que a coisa danou. O papai noel era ela, que comprava os presentes com o dinheiro dele, o meu pai, que por sua vez, não estava nem aí. Me sentí traído e enganado e os natais perderam a graça. Natal para mim sempre teve cara de enterro. Acho que as pessoas confundem festa de aniversário com velório. O que era para celebrar o nascimento de uma criança vira, na maioria dos lares, tristeza de sexta feira da paixão. Aquelas músicas tristes tocando no aparelho de som, todo mundo se fingindo de bonzinho para ganhar presente, alguns até se atrevem a lavar a roupa suja de um ano inteiro neste dia, mas só depois de encher a cara com o soro da verdade, o alcool. Por isso estou indo visitar o meu irmão Lula e a sua familia lá em Maceió. Lula me disse que na casa dele o natal é só comilança, alegria e não rola a tal da culpa católica. Então decidi fazer as malas e me mandar pra lá. Vou passar um natal ao lado de gente alegre, bonita e sem culpa, e tomara que vocês façam o mesmo. Que tenhamos todos uma vida alegre, bonita e despreocupada, na noite de natal e sempre. Feliz natal todos os dias.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

PENSAMENTO DO DIA

"SOU AQUELE QUE NÃO DESISTE NUNCA"

domingo, 20 de dezembro de 2009

CARLOS MALTA E ANDRÉ SIQUEIRA



          Domingo de sol no Rio de janeiro. Saí para caminhar no aterro e para assistir ao show de Carlos Malta acompanhado por André Siqueira ao violão, no anfiteatro que a prefeitura do Rio administra em pleno parque do Flamengo e que promove várias atividades culturais regularmente, inclusive os imperdíveis shows de chorinho, que acontecem geralmente no ultimo domingo de cada mês, e que hoje excepcionalmente, aconteceu no terceiro domingo.
          O André Siqueira eu tive o prazer de conhecer no inicio deste ano que está terminando, quando ele se apresentou em uma casa de shows que eu programava no Leme, acompanhando a maravilhosa e bela cantora suíça Jenny Chi, me deixando impressionado pela competência com que ele trata um instrumento delicado, apesar de popular, como é o violão. Aos 26 anos de idade André é sem dúvida um dos maiores violonistas do Brasil. O Carlos Malta dispensa comentários e apresentações, mas se por acaso algum desavisado ler este blog, vou informando que Carlos Malta é disparado o maior saxofonista, flautista do Brasil e como já disse aqui antes, quiçá do mundo. O repertório do show foi um manjar dos deuses. Eles passearam por Pixinguinha, Radamés, Hermeto, Tom Jobim e outros bambas do choro e da música popular do Brasil, com a maestria de sempre do Malta, criando arranjos e fazendo releituras renovadas para temas conhecidos, como águas de março, que ganhou roupa e colorido novos. Malta tocou vários tipos de instrumentos de sopro, alguns desconhecidos do grande público, como o clarone, que tem um som grave espetacular. Uma beleza!
          O parque do flamengo, que já é bonito por natureza e por inspiração do Burle Max, ficou ainda mais lindo e ensolarado no dia de hoje, e nós, cariocas de todas as partes do Brasil, nos sentimos privilegiados de morar nesta cidade, apesar da administração confusa que estamos tendo agora, quando um garoto brinca de ser prefeito, não conhece o verdadeiro espírito carioca e dá um "choque de desordem" na alegria de se viver na cidade mais linda do mundo, complicando a vida dos barraqueiros de praia por exemplo, que como mencionou o Carlos Malta ao final do show, “uma gente que nós podemos chamar de seu” de tão íntimos que somos do pessoal que trabalha nas barracas das nossas lindas praias. Vamos pra frente e viva a boa música que se faz neste país.

sábado, 19 de dezembro de 2009

NO HOPE.

         


          Com tristeza, mas sem nenhuma surpresa, leio nos noticiários o resultado da conferencia das nações unidas sobre as mudanças climáticas, realizada em Copenhagen, capital da Dinamarca, primeiríssimo mundo, e que resultou num acordo tímido e covarde. Não é ainda o fim do planeta, mas certamente pode ser o começo do fim, daqui a algumas dezenas de anos, quando estes mesmos lideres, que assinaram esse acordo, sob protestos e indignação de boa parte da população do planeta, não estará mais aqui na Terra.

          Desde que o samba é samba é assim, desde que Caim matou Abel com uma pedrada na cabeça, criando o arquétipo da inveja e da ganância, o samba tem sido o mesmo. Os líderes mundiais ali reunidos, estão a mais da metade do caminho de suas existências, e estão milionários, cada vez mais poderosos e se lixando para as gerações futuras, por que esta é parte da natureza humana, principalmente dos que chegam ao poder, egoísmo, ganância, vaidade, insensibilidade. Daqui para frente, enquanto a luta ambientalista continua, seguiremos assistindo a tufões, nevascas, tempestades, terremotos e outras catástrofes causadas pelo aquecimento global. O mundo segue sem esperança. Copenhagen, “NO HOPE”.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ALIVIA POR FAVOR!

ALIVIA COMPADRE
TÁ DOENDO PRA CARALHO
ASSIM EU NÃO VOU AGUENTAR
EU SEI QUE O MUNDO É ESCROTO
QUE O SANTO É DE PAU ÔCO
QUE O QUE REFRESCA O OLHO É PIMENTA
QUE É A FOME O QUE TE ALIMENTA
MAS ALIVIA POR FAVOR
JÁ DEI TUDO O QUE EU TINHA QUE DAR
A MINHA ALMA
O MEU SOSSÊGO
MINHA MÃO A PALMATÓRIA
E A MINHA CARA AOS TAPAS
MAS A OUTRA FACE
EU NÃO DOU
POR ISSO EU TE PEÇO COMPADRE
ANTES QUE O MUNDO SE ACABE
ALIVIA POR FAVOR.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O TALENTO ABENÇOADO. POR QUEM MESMO?

      

          Eu costumo dizer que aprendi a tocar violão com o meu irmão Lula, não o presidente, o Lula Duarte. Na realidade, cansado de pedir ao meu irmão e aos amigos dele, que me acompanhasse nas canções malucas que eu inventava, resolvi comprar um método de violão e em quatro horas com ele na mão, estava tocando “a banda” do Chico Buarque. O que Lula me ensinou mais tarde, vendo em mim um talento nato, foram os acordes dissonantes, coisa muito mais fina, requintada e que musicalmente, mudou o rumo da minha vida. Até hoje, por exemplo, toco “Falsa Baiana” do Geraldo Pereira, com a mesma harmonia que o Lula me ensinou, trecentos anos atrás. Mas violão mesmo, eu aprendi sozinho para me acompanhar, pois o meu dom nato de verdade, é o canto, eu sou cantor. Nasci com o dom dos passarinhos. Só faltou voar.
          Hoje recebi um email do meu irmão Lula, onde ele diz que eu tinha sido abençoado com o talento da musica. Eu também acreditei nisso um dia, e fui burro pra cacete de não ter sacado que benção não enche a barriga de ninguém e fiquei achando que por ser abençoado, o sucesso viria bater na minha porta e dizer: aê ô cara chegou a sua hora. É claro que eu não fiquei de braços cruzados esperando por essa hora, mas meio que relaxei, aceitando tocar por qualquer coisa, pensando que um dia eu receberia o devido valor. De uns tempos para cá, e bota tempo nisso, eu cansei. Cansei de ser explorado, aqui e no exterior também. As pessoas pensam que artista não tem contas a pagar, que nos alimentamos de vento, e cada vez mais, os cachês e salários dos músicos são menores. Essa desvalorização se deve muito ao fato da massificação da música em detrimento do talento. Hoje em dia, qualquer um mortal pode entrar em um estúdio, pagar, e sair de lá com o seu cd debaixo do braço. Qualquer um pensa que pode cantar, vivemos na era dos playback, da música monocórdia do raps e dos bailes funk ( aquilo é música?), da “bunda music” que a mesma Bahia que exportou Caetanos, Bethanias e Gilbertos, mandou para o mundo a musica que se convencionou chamar de axé.
          Ando revoltado com o meu talento e com quem o abençoou. No sábado passado fui a uma apresentação de choro liderado pelo renomado e excelente bandolinista Joel Nascimento, acompanhado por quatro jovens e talentosos músicos que infelizmente não pude guardar os nomes, mas que tocavam violão, violão de sete, cavaquinho e pandeiro. De quebra ainda teve a canja do Dirceu Leite no sax, clarinete e flauta. Show de bola. A apresentação foi no Instituto Cravo Albin, que funciona na Urca, em um prédio de três andares. O show rolava no terraço, de frente para o mar, maior visual, quando de repente, começa a maior “curimba” na praia. Eram os devotos de Iemanjá baixando o santo e poluindo ainda mais, a já poluída baía de Guanabara, com flores, barquinhas e aquelas oferendas todas. Como o espaço era praticamente aberto, tratando-se de um terraço, o som dos atabaques interferiam no som maravilhoso do choro interpretado por aqueles músicos. Foi uma tarde/noite de choro axé, que seria hilário, se não fosse pelo profissionalismo daqueles grandes artistas, que deram o seu recado magistralmente e certamente nem se tocaram para o barulho que vinha da rua.
          Durante a apresentação eu fiquei pensando que ainda bem que existe pessoas como o Ricardo Cravo Albin, que abre as portas da sua casa para nos oferecer, ainda que para um público reduzido, música de excelente qualidade. Mas e depois? Será que aqueles músicos vivem da música maravilhosa que eles fazem? Será que eles pagam as contas em dia? Que futuro terá aqueles quatro garotos que tocam tão bem a verdadeira música brasileira?
          Eu abdiquei a trinta anos atrás, de um emprego público, para correr atrás do meu sonho, cantar para o mundo. É bem verdade que realizei parte desse sonho, vinte anos depois, depois de comer muita grama pela estrada, pois conheci meio mundo cantando, mesmo sendo mal pago por uma companhia de navios de cruzeiros, mas conheci meio mundo. Ainda bem que tudo que eu consegui guardar, deu para comprar um apartamento de quarenta metros quadrados. Ainda bem, por que a maioria dos músicos sequer tem aonde cair morto, que é normalmente o destino do artista não só brasileiro mas do mundo. A Billie Holliday quando morreu, tudo que ela possuía eram 75 dolares escondidos numa meia. Claro que os tempos são outros, mas eu não quero esse tipo de destino para mim, nem para ninguém que tenha sido abençoado com o dom da música. Hoje me arrependo de ter largado o meu emprego público e de ter sonhado demais, ou será que eu acreditei de menos no meu abençoado talento? Abençoado por quem mesmo?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

TUDO É MÚSICA

Letra e música de Ricco Duarte
gravada no cd "Tudo é música"


NÃO ME ACABO PRA FICAR INTEIRO
NÃO SOU CORDEIRO NEM BEZERRO
NÃO ABAIXO A CABEÇA E NEM CHORO
NESSE LUGAR AONDE MORO
TERRA DE TODOS E DE NINGUÉM
UM PEDAÇO DE TUDO
O MAL, O BEM
MEIO MULATO MEIO NEGRO MEIO BRANCO
MEIO MORENO MEIO FALSO MEIO FRANCO
QUE LUGAR É ESSE DE ETERNO CARNAVAL
ESSA BUNDA MULATA
ESSA COXA, ESSE PAU
ESSA CARA DE LATA
ESSE MUNDO, ESSE TUDO
QUE BURRICE NÃO SACAR QUE ISSO É TUDO
TUDO DADO ÀS MARAVILHAS E ZAROLHO
UM LUGAR DO FUTURO E CAOLHO
NÃO ENXERGAM UM PALMO
E TUDO É MÚSICA
NÃO ENXERGAM UM PALMO
E TUDO É MÚSICA

TUDO É MÚSICA ZABUMBAS E PANDEIROS
TAMBORINS CHOCALHOS E SALGUEIROS
TUDO É BATUQUE TUDO É BATUCADA
OLODUNS MANGUEIRAS TIMBALADAS
SOM DE TAMBOR E MUITAS PALAVRAS
TUDO BUARQUE VELOSO E GILBERTO
TUDO JOÃO TUDO LONGE TUDO PERTO
O QUE HÁ DE MAIS LINDO NO UNIVERSO
QUE LUGAR É ESSE TÃO ANIL E TÃO VILÃO
UM LUGAR TÃO GENTIL
MAS SEM NENHUM CORAÇÃO
SE JOGAR A SEMENTE
TUDO NASCE NESSE CHÃO
QUE BURRICE NÃO SACAR
QUE TUDO É BROWN
TUDO DADO ÀS MARAVILHAS E ZAROLHO
UM LUGAR DO FUTURO E CAOLHO
NÃO ENXERGAM UM PALMO
E TUDO É MÚSICA.
NÃO ENXERGAM UM PALMO
E TUDO É MÚSICA

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O ELETRIZANTE BRASILEIRÃO 2009

         Terminou o campeonato brasileiro de futebol de 2009. Entre mortos e feridos, salvaram-se quase todos. Destaque para o meu Fluzão que em arrancada histórica, embalado pela nossa maravilhosa torcida, o grupo de guerreiros liderado pelo técnico Cuca, pelo maestro Conca e pela estrela do Fred, conseguiu escapar do rebaixamento para a segunda divisão, na ultima rodada, numa batalha campal contra o Coritiba, dentro dos domínios do adversário.
          Este foi um campeonato que dificilmente será esquecido. Decidido na ultima rodada, com quatro candidatos diretos ao título, e quatro disputando para não cair, sem falar em uma das vagas para a Libertadores, que quase no apagar das luzes, ficou com o Cruzeiro, deixando o Palmeiras a ver navios. Este campeonato brasileiro também será lembrado não só pelo equilíbrio entre as equipes, que a cada rodada se revezavam nas primeiras e ultimas posições na tabela de classificação, como também por ter quebrado a longa hegemonia do futebol paulista, que nos últimos anos vinha faturando quase todos os “brasileirões”.
          O São Paulo quase ganhava mais uma vez, e seria a quarta consecutiva. O Palmeiras chegou a abrir sete pontos para o segundo colocado e no final não faturou nem uma vaguinha na Libertadores. O campeão, dono da maior torcida do país, não tem uma equipe tecnicamente de qualidade, mas veio comendo pelas beiradas e como existe uma máxima no futebol, que diz que “se deixar o Flamengo chegar, já era”, foi. Na penúltima rodada o rubro negro carioca abriu dois pontos de vantagem para os três segundo colocados, e aí papou o seu sexto título brasileiro.
          Palmas para o Botafogo que escapou também do rebaixamento, na ultima rodada. Vaias para a torcida do Coritiba, que não soube perder e agora vai prejudicar ainda mais o seu time, que terá provavelmente o seu estádio interditado, segundo os jornais, por tempo indeterminado. Tristeza de ver o futebol pernanbucano indo para o buraco. Alegria de saber que temos o maior e melhor futebol do mundo. Que os próximos “brasileirões” sejam assim, eletrizantes como foi o campeonato de 2009.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

ZÉ BELEZA

Letra e música de Ricco Duarte

NA SEXTA FEIRA VESTE BRANCO
E DESCE O MORRO
ACENDE UMA VELA PRO SANTO
PRO SAMBA ELE PEDE SOCORRO
LÁ VAI MAIS UM BRASILEIRO DA GEMA
ELE É O ZÉ!
COM ELE TÁ TUDO BELEZA
É ELE UM AMIGO DE FÉ

ZÉ BELEZA ESPANTA A TRISTEZA
CONTANDO ESTÓRIAS DE PESCADOR
AS VEZES PARECE GRANFINO
AS MENDIGO
AS VEZES DOUTOR
TEM A CARA DE MENINO
E O CORAÇÃO DE TORCEDOR
SEGURA AS PONTAS DO DESTINO
POR QUE TEM A FAMA DE BOM PAGADOR

ZÉ BELEZA É SÓ ALEGRIA
MELHOR DO QUE ELE SÓ O CARNAVAL
SAMBA DA NOITE PRO DIA
E SACODE A POEIRA
POR QUE ELE É O TAL
ONDE ELE CHEGA TEM FESTA
CAVACO PANDEIRO E VIOLÃO
MULHER BONITA NÃO PAGA
E A FEIA TAMBÉM NÃO FICA NA MÃO



Chove finalmente no Rio de janeiro!
Êparrei Iansã! Viva Santa Barbára!
Bom final de semana para todos.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

AMOR E SEGURANÇA

Letra e música de Ricco Duarte


O QUE EU QUERO NA VIDA É SEGURANÇA
CARRO CASA COMIDA E ROUPA LAVADA
PASSEAR NO PARQUE COM AS CRIANÇAS
E DE SOL A SOL VIVER EM PAZ
BEIJAR NA BOCA COM SEGURANÇA
FAZER AMOR COM SEGURANÇA
ME BALANÇAR NA SUA DANÇA
E LEVAR VOCÊ PRO SAMBA.
MAIS DE UMA VEZ
EU TENTEI LHE MOSTRAR
MEU CORAÇÃO AOS PULOS
PRA VOCÊ SE TOCAR
EU QUIS UM ABRAÇO MAIS FORTE
VOCÊ SORRIU E ME DISSE
CUIDADO GAROTO QUE O BOM MESMO
É BEIJAR NA BOCA COM SEGURANÇA
FAZER AMOR COM SEGURANÇA
ME BALANÇAR NA SUA DANÇA
E LEVAR VOCÊ PRO SAMBA.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

"O SAMBA É O JABACULÊ DA VIDA"

          Nasci em um bairro de sambistas em Salvador, o bairro do Garcia e talvez por isso, sempre fui apaixonado pelo samba. Ao me mudar para o Rio de janeiro, fui durante anos, tamborim da Escola de samba São Clemente e do bloco Simpatia é quase amor, desfilei inúmeras vezes pelo meu Salgueiro querido e também por outra escolas como a Portela e Grande Rio. O samba é para mim, fonte de energia, de relaxamento, onde você consegue esquecer as dificuldades da vida, desestrassar e encontrar forças para seguir em frente, o samba é enfim, alegria! Uma vez, saindo de um ensaio da quadra da São Clemente, escutei um colega ritmista gritar a plenos pulmões: "O SAMBA É O JABACULÊ DA VIDA!" Estávamos com a alma lavada. O samba é iso aí, o jabaculê, o oxigênio da vida, no samba encontramos forças para recomeçar com mais força ainda. E atendendo a pedidos, publico hoje outra vez, dia nacional do samba, a letra de um samba meu, que define bem o que é o samba, o brasileiro e como um não pode viver sem o outro, porque "quem samba, se esquece da dor".

QUEM SAMBA SE ESQUECE DA DOR
                                   letra e música de Ricco Duarte


Somos os zés
Da Silva dos rés
Da tribo de muitos pajés
Aldeias de Angola e de Olinda
Já vimos dançar uns mil Manuéis
Já vimos rolar cabeças e anéis
Coqueiros e igarapés
E estamos de pé ainda
No morro da silva dos zés.
Quando o batuque rolou nas marés
E deixou o meu canto de fé
Fazer a magia
Me espalhei pelas terras do Rio
Das Minas Gerais do Brasil
Dos mares azuis da Bahia
Quando rolou um barraco eu chorei
Mas a volta por cima eu dei
Pois quem samba só tem alegria
Sou o esplendor do morrro
Da vida eu sou
Quem samba se esquece da dor.



Feliz dia do samba para todos!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

FINALMENTE É DEZEMBRO!



          Finalmente é dezembro! Não vivemos em anos dourados, muito pelo contrário, mas temos que manter o espírito otimista no inicio do mês que fecha o ciclo de mais um ano cristão. Os shoppings vão estar abarrotados, com aquelas decorações natalinas de péssimo gosto. Papai Noel vai se multiplicar aos milhares por todos os cantos, com aquela roupa vermelha e ridícula. As crianças estarão à solta, de férias, barulhentas, infernizando a vida de mães e pais por toda parte. É o mês das festas, das confraternizações, quando se bebe mais do que o normal, portanto, apesar de continuarmos morrendo de calor, vamos manter o espírito prá cima.
          Dezembro já começa com o dia mundial de combate a AIDS, que assim como o dia das mães, dos pais e do amigo, deveria ser celebrado todos os dias do ano. Tem gente que só se lembra de usar o preservativo no dia primeiro de dezembro, e gente que nem nesse dia consegue usar, nem que a vaca tussa. Parece incrível, mas a medida em que avançam as pesquisas em direção a uma possível cura da AIDS, as pessoas se esquecem cada vez mais de se proteger. Tenho visto de tudo, descuidos de todos os níveis, da classe A a Z. Gente com nível superior, professores universitários, diretores de faculdades federais, que se recusam a usar a camisinha terminantemente.
          Ano passado eu terminei um relacionamento com um sujeito que dirige uma unidade de ensino da Universidade Federal da Bahia. No início o cara ainda era casado. Pai de três filhos adolescentes, ele sempre se recusava a usar a camisinha, pois se achava acima do bem e do mal, imune a esse ou a qualquer outro tipo de vírus, apesar do aspecto pouco saudável, franzino, aparentando ter muito mais dos 45 anos que ele diz ter. Quando o mandei pastar e o adverti que ele teria dificuldade de encontrar alguém, homem ou mulher, que aceitasse transar sem camisinha, ele me respondeu sorrindo: “você é que pensa”. Pois é, as estatísticas hoje comprovam que nos últimos anos, a maior incidência de infectados com o Vírus HIV, está justamente entre as mulheres, a maioria casadas, contaminadas pelos seus maridos. Não foi o caso que eu saiba, da mulher desse cidadão que se diz educador. Na verdade nem sei se ainda estão vivos, o que eu sei, é que quando eu voltei para o Rio, disposto a apagar o erro de ter me relacionado com uma pessoa tão equivocada, tomei a providencia de refazer os exames, e graças a Deus estou limpo, pois sempre tomei a precaução de me proteger e de fazer os exames periodicamente.
        Vamos usar camisinha sim, todos os dias, homens e mulheres, que tenham parceiros estáveis ou não, pois quem vê cara não vê coração. Uma pessoa pode estar infectada e não manifestar nenhum sintoma da doença por até dez anos. Feliz Dezembro de um ano bronzeado, com saúde e consciência de que a vida é o bem maior que nós temos. E nas confraternizações desse mes, se por acaso beber, não dirija, chame um taxi, ou vá de carona com um amigo sóbrio.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A COR DA PAZ

 DE FRANCO CAVA E RICCO DUARTE

TÁ NA PENA DO PATO
TÁ NA PALMA DO PRETO
TÁ NA DUNA DE AREIA
TÁ NO AVENTAL DA FEIRA

BRANCA FARDA DE MARINHEIRO
SAL, AÇUCAR
BRANCO DE TERREIRO
SEXTA FEIRA
CLARÃO DA LUA
ABA DE CHAPÉU DE FREIRA
OXALÁ
ABADÁ
GAIVOTA E VELA NO MAR
A COR DA PAZ
BRANCA ROSA PRA IEMANJÁ

TÁ NA PENA DO PATO
TÁ NA PALMA DO PRETO
TÁ NA DUNA DA AREIA
TÁ NO AVENTAL DA FEIRA

BRANCA ESPUMA
NA BEIRA DA PRAIA
VÉU DE NOIVA
RENDA DE SAIA
ACAÇÁ, CUSCUZ E COCADA
O SORRISO DA MULATA
REVEILLON
PÉROLA
GAIVOTA E VELA NO MAR
A COR DA PAZ
BRANCA ROSA PRÁ IEMANJÁ

UMA SEMANA DE PAZ PARA TODOS.

domingo, 29 de novembro de 2009

BISCOITOS GLOBO

      

         Quase trinta anos morando no Rio e eu não sabia ainda, exatamente porque, os biscoitos Globo, dividiam, com o Pão de açúcar, o Corcovado, a praia de Copacabana e até com a garota de Ipanema, a honra de ser um dos marcos da cidade maravilhosa. Nove entre dez cariocas preferem os biscoitos Globo, na praia, no cinema, e principalmente nos estádios de futebol. Aí, finalmente acabou a minha dúvida. A sete rodadas do final do campeonato brasileiro, o meu Fluminense já estava virtualmente rebaixado para a segunda divisão. Aí eu tive um sonho, no qual o Fluminense ganharia do Atlético mineiro por dois a zero, com gols do nosso maestro Dario Conca.
          Aí eu acordei animado, e não sei porque, decidi ir ao Maracanã (com maiúscula por favor, pois trata-se do templo do futebol). Ao chegar ao “maraca” me deparei com uma torcida atleticana que nos deixava em minoria. Mas eu estava otimista que só, e comentei com um anônimo colega tricolor: ”logo hoje que eles resolveram vir ao estádio vamos ganhar de dois a zero”. Ganhamos de dois a um, mas antes do jogo começar, eu que não tinha comido nada antes de sair de casa, passei em um dos bares do maraca e sem saber porque, pedi um pacote de biscoito Globo, só para experimentar.
          Fui ao paraíso das onze mil virgens e voltei. O biscoito nada mais é que biscoito de polvilho, mas com fome, até pedra é banquete. No intervalo do primeiro para o segundo tempo repeti a dose. E o Fluminense ganhou a partida, o segundo gol marcado pelo Conca, e começou ali, a sua incrível reação no brasileirão. Como eu sou baiano e consequentemente superticioso, não necessáriamente nessa ordem, adotei o hábito de antes de qualquer partida do meu Fluzão, comer pelo menos um pacotinho de biscoito Globo.
          A mandinga tem dado certo, pois hoje saímos da zona de rebaixamento, após 27 rodadas entre os quatro últimos, ganhando os seis últimos jogos, dos sete que nos faltava, alguns inacreditáveis como o jogo contra o Cruzeiro, lá em Belo horizonte, e tudo isso, atribuído por esse escriba que vos escreve, maluco pelo Fluminense, à magia dos deliciosos biscoitos Globo, que agora não só considero um marco da cidade maravilhosa, como também considero os tais biscoitos, tricoloríssimos de coração. E com a vitória de hoje, por quatro a zero sobre o “derrota da Bahia”, seguimos para a frente, comendo biscoitos Globo antes do próximo jogo, para nos sacramentar para sempre na primeiríssima divisão do maior e melhor futebol do mundo.

"FRATELLI DI RESPIRO"

          

          Neste ano da graça de 2009, os meus amigos desandaram a lançar os seus escritos. Em um país que tem a fama de pouca leitura, se aventurar pelo mundo literário é de uma coragem sem tamanho. No entanto não foi isso exatamente que eu vi na última bienal do livro no Rio de janeiro, realizada no mes de setembro no Rio Centro. O que eu vi por lá foi uma multidão se acotovelando pelos pavilhões, uma multidão ávida por novidades de todas as áreas literárias, da infantil a científica. Naquele 19 de setembro, eu destaco o lançamento do meu amigo, ator, poeta, escritor e jornalista, Vinícius Faustini, que lançava o seu primeiro livro de contos, "Diário de um salafrário"( Editora Litteris ), onde ele reúne brilhantemente, trinta contos da melhor qualidade, alguns no melhor estilo Nelson Rodrigueano, sempre surpreendendo o leitor com um estilo sensual e cinematográfico. Os contos do Vinícius se parecem a cenas de filmes, fazendo com que o leitor se sinta diante de uma tela de cinema ou televisão, viajando com as imagens por ele descritas, com riqueza de detalhes, cheio de personagens curiosos. Quem quiser conhecer mais, compre e leia o livro e acesse o blog do mesmo nome, onde o Faustini segue publicando os seus escritos irreverentes.
            Em Outubro foi a vez do jornalista, poeta, escritor, letrista e produtor, Euclides Amaral, lançar "O guitarrista Victor Biglione e a MPB" (Edições baleia azul). O livro é uma biografia do músico argentino Victor Biglione, o músico estrangeiro com a maior contribuição em gravações e shows na música popular brasileira. O meu amigo Amaral, que no ano passado lançou "Alguns aspectos da MPB", segue com o seu estilo vigoroso e poético de escrever, que deixa o leitor quase sem folêgo, sequer para tomar um golinho d'água, nos prendendo da primeira a última página. O lançamento foi na Livraria Bolivar, que se tornou pequena para o grande número de fãs do Euclides e do Victor.
            Novembro nos brindou com o delicioso "Forte, macchiato, carioca", do meu parceiro e queridissimo amigo Franco Cava. Franco que é ítalo brasileiro, nascido no Rio de janeiro, filho de imigrantes italianos, foi nos anos noventa, o meu parceiro mais constante. Com ele produzi dezenas de canções, algumas gravadas por mim, outras por ele e uma por uma banda de axé na Bahia, por que ninguém é de ferro. "Forte, macchiato, carioca", uma referência a tres tipos de café, é um livro de poesias e letras de música, escrito no Rio, Curitiba e em Milão. Dividido em tres partes, o Forte, é dedicado a Curitiba e traz poesias apaixonantes e apaixonadas. O Macchiato é todo escrito em italiano e é dedicado  a Milão, onde Franco passeia por uma Italia dramática, como sempre bela e plena de paixão. Carioca é dedicado ao Rio e reúne as letras de música, a maioria sambas, alguns que fizemos juntos, no melhor estilo ítalo/baiano/carioca. O lançamento foi no Istituto Italiano de cultura, com direito a um pocket show do autor. Na orelha do livro, Lorenzo Jovanotti, artista italiano e produtor de dois cds do Franco, gravados na Italia, escreveu:  "Franco tem um irmão gêmeo e alguns outros irmãos nascidos de outras mães e de outros pais, irmãos de respiração como eu, que sou seu irmão". Faço minhas, as palavras do Jovanotti, pois me considero irmão de "respiro" dos meus tres amigos, somos "fratelli di respiro", apaixonados pela arte de escrever.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

HOPEN HAGEN

         Eu já perdi a conta de quantos dias de calor intenso estamos vivendo na cidade do Rio de janeiro, tres, quatro semanas? Não sei, o que eu sei é que em 27 anos que eu vivo nesta cidade, nunca vi nada igual. Um calor abafado, sufocante, que nos faz deixar o bom humor carioca de lado, dormir mal e gastar uma pequena fortuna com ar condicionado e ventiladores ligados, 24 horas por dia. Quando eu cheguei ao Rio, no início dos anos oitenta, tinhamos ainda as quatro estações bem definidas, um friozinho gostoso no inferno, uma primavera colorida, um verão quente, mas nem tanto, com direito a pancadas de chuva tropical no final da tarde e um outono de tirar o folêgo de tão lindo. Isso foi apenas, a pouco menos de trinta anos. Nos últimos anos, a cada ano que passa, a cidade esquenta mais e mais, e mais cedo. Estamos ainda na metade da primavera e já estamos torrando. É  óbvio que esta mudança está diretamente ligada ao aquecimento global, ao desmatamento, a emissão de gases toxicos na atmosfera, ao desvio do curso dos rios, que tem alterado drasticamente a temperatura do planeta, causando catástrofes e mais catástrofes.
          É claro que não podemos ficar de braços cruzados e nos deixar torrar no forno que está virando o planeta Terra, nossa casa, nossa mãe. Faltam pouco mais de nove dias para que líderes mundiais, reunidos em Copenhagem, Dinamarca, decidam o futuro do planeta. No blog do meu amigo musico e ambientalista, Paulo Rocha, pre candidato a deputado estadual em 2010, pelo Partido verde, há um link onde voce pode se fazer ser ouvido, assinando uma petição e deixando a sua mensagem de esperança para o futuro da nossa casa, o nosso planeta. É o "HOPEN HAGEN". Acesse, assine, deixe uma mensagem, não vai levar mais do que trinta segundos. Se não gritarmos agora pode ser tarde demais.
          No mais, aplausos para a China, o maior poluidor do mundo, cujo governo já anunciou que vai reduzir em até 40 por cento a emissão de gases na atmosfera, dando o exemplo e uma rasteira nos Estados Unidos, que se compromete em reduzir em apenas 17 por cento. De quebra, o presidente chinês comparecerá em carne e osso ao encontro de Copenhagem. Que outros chefes de estado sigam o exemplo, comparecendo e colaborando para um futuro melhor aqui na Terra. Tenham todos um belíssimo, e mais fresquinho, final de semana.
        

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A HORA É ESSA E AGORA


As fotos são do grande Amadeo Bocatios.


Com a benção do mestre Bôscoli ao fundo.



                                            Thaís Motta, Thaís Fraga, Ricco Duarte e Chamon.          

          Na semana passada, numa sexta feira treze de novembro, eu tive a alegria de participar do evento comemorativo aos 50 anos do show de bossa nova da Escola Naval, que lançou na época, entre outros, uma das grandes intérpretes da bossa, a Nara leão, que fez na oportunidade a sua primeiríssima aparição pública como cantora. Eu entrei nesse show meio que por acaso, pois estava passando pela porta da Toca do Vinícius, em Ipanema, e ao ver anunciado o “ensaio geral do show da escola naval”, entrei para perguntar quem eram os artistas que estariam participando do evento. Fui recebido pelo dono da Toca, o Carlos Alberto Afonso, batalhador incansável pela preservação da memória da bossa nova, uma figura ímpar. A Toca do Vinícius funciona na Rua Vinícius de Moraes, e lá podemos encontrar absolutamente tudo a respeito desse movimento que levou a música popular brasileira para os quatro cantos do mundo, CDs, livros, etc. Nos apresentamos, e o Carlos Alberto ao saber que eu era cantor, me perguntou se eu sabia o telefone da Thaís Motta, eu disse que sim e que ela é, na minha opinião, a maior cantora do Brasil no momento, e depois de umas duas horas de bom papo, onde o Carlos me explicou o que vinha a ser o tal ensaio geral, fui embora na missão de conseguir o telefone da Thaís, coisa que o fiz meia hora depois, assim que cheguei em casa e consultei a minha agenda.
          Dois dias depois, recebo um email do Carlos me comunicando que eu cantaria tais e tais músicas. Eu fiquei surpreso e liguei para o Carlos para esclarecer a história. Ele então me pediu que eu fosse até a Toca para conversarmos e que não tomaria mais do que 40 minutos do meu tempo. Foram mais de três horas de excelente papo, onde entre outras pérolas do Carlos, escutei que o João Gilberto, meu maior ídolo e conterrâneo, tinha sido o arquiteto da bossa nova, que é segundo o Carlos, nada mais nada menos, a música do músico, ou seja, a maneira como o músico sente a música, o samba, e o interpreta. Estávamos ali afinados na mesma opinião. Então resolví aceitar ao convite para participar do show, interpretando quatro canções.
          O ensaio geral aconteceu no teatro do Colégio Notre Dame em Ipanema, num domingo, e cinco dias depois, numa sexta feira treze, exatamente como a cinqüenta anos atrás, nos apresentamos no teatro da escola naval, interpretando a nossa maneira, o mesmo repertório que na época foi defendido por estrelas do porte de Silvia Telles, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Normando Santos, Lucio Alves e que foi cinceroneado por um dos maiores compositores da bossa, o Ronaldo Bôscoli. Além de mim, participaram, a maior de todas, a rainha, como eu a chamo carinhosamente, Thaís Motta, o grande cantor Chamon e a Thaís Fraga, que foram acompanhados pelos excelentes Rubinho (bateria), Paulo Midosi, (teclado) e Haroldo Cazes (baixo), músicos de primeira, que durante anos acompanharam o Durval Ferreira, grande compositor da bossa nova, já falecido. Eu cantei, me acompanhando ao violão, como sempre faço, "Agora é cinza", do Bide e Marçal, "Por causa de você", da Dolores e do tom, "Esse teu olhar", do Tom, e "A noite do meu bem", obra prima da Dolores Duran.
          Na primeira fila estavam nada mais nada menos que o mestre Roberto Menescal, que eu evitei encarar para não me desconcentrar, a doce e maravilhosa cantora Claudia Telles, filha da Silvinha Telles e o Normando Santos, que hoje mora em Paris. Nunca uma primeira fila foi tão de primeira. O Carlos Afonso foi um mestre de cerimônia impecável, nos deliciando com as suas histórias longas e divertidas. Na produção, a Sonia Rocha e o Bruno Martins, da Carvana produções, fizeram um trabalho maravilhoso. Na platéia, além de centenas de aspirantes da Escola Naval, estavam personalidades do mundo da música, filhos e parentes dos artistas que participaram do show original, como o Bernardo Bôscoli, filho do Ronaldo, o grande músico, maestro e arranjador, Marvio Ciribeli, primo do Lucio Alves, e também o grande escritor e jornalista Ruy Castro, autor do Chega de saudade, o melhor livro já publicado sobre a bossa nova, e que nos brindou com algumas palavras.
          O grande destaque da longa noite, foi a ovação recebida pela Thais Motta, não só durante a sua apresentação, como também quando foi chamada para receber a condecoração que todos nós recebemos depois do show. Os aspirantes ficaram literalmente loucos com a Thaís, porque ela é realmente a maior cantora desse país de grandes cantoras, e a voz do povo é a voz de Deus. Agora a miss ritmo, como também é conhecida a Thais Motta, é a nova favorita dos aspirantes da marinha. E é a minha favorita também. O triste é que passados cinqüenta anos, numa cidade como o Rio de janeiro, berço da bossa, a bossa nova e a música brasileira no geral, tenha pouco espaço para ser escutada pelos seus milhões de fãs espalhados pelo mundo e que visitam a cidade aos milhares, na esperança de encontrar uma casa de show a cada esquina. A bossa nova por exemplo, fica praticamente restrita ao Vinícius bar, em Ipanema, que por não ter concorrentes, não se empenha em melhorar o serviço, funcionando com um staff que não está nem a altura da grandeza da nossa música, nem a altura da cidade do Rio de janeiro. Alô alô empresários, tem mercado e público para boa música que se faz nesse país sim senhor, o mundo inteiro está de olhos bem abertos para o Rio, vamos investir na bossa, na música brasileira e nos grandes artistas que estão por aí precisando trabalhar. A hora é essa e agora.

sábado, 21 de novembro de 2009

SORTE DO DIA

"PUNK A VIDA, ANTES QUE ELA TE ESPANQUE"



BOM FINAL DE SEMANA PARA TODOS.

COITADA

Na boca daquela moça
Eu não valia nada
No coração dela
Eu era uma piada
Coitada daquela moça
Coitada!
Hoje, naquela boca calada
Naquele coração surdo
Vejo uma moça atrapalhada
Sem norte
Sem rumo
A tatear no escuro
Da sua alma cansada
Das noites sem travesseiro
E das suas manhãs nubladas.
Assim vai seguir a moça
Até o final dos tempos
Sem força
Sem lava
Refém do meu silêncio
Ausente do meu perdão
Longe da minha graça
Coitada!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O SILÊNCIO

ELE PREFERIU O SILÊNCIO
UM BICHO MORDEU A LÍNGUA DELE
E LHE ROUBOU O SOM DAS PALAVRAS.
FICOU MUDO.
A CABEÇA ENFIADA NO TRAVESSEIRO
O CORAÇÃO PARALISADO PELO MEDO DA ENTREGA.
ELE PREFERIU O SILÊNCIO
E NÃO VIU A MINHA MÃO ESTENDIDA
LHE OFERECENDO AMIZADE
PORQUE A SUA CABEÇA
ESTAVA ENTERRADA NO TRAVESSEIRO
COM O CORAÇÃO PARALISADO
PORQUE
ELE
PREFERIU
O SILENCIO.

DONA NEUZA

          Tive uma mãe tirana e má. É preciso coragem para admitir nesse mundo hipócrita, onde as mães estão acima do bem e do mal, de que tive uma mãe tirana e má. Hoje os meios de comunicação, cada vez mais velozes, já divulgam tiranias maiores, do tipo das mães que matam os seus recém nascidos, acorrentam seu filhos, etc. Dona Nalva, minha mãe biológica, não chegou perto disso. Foi mais longe. Fez tortura psicológica e física. As psicológicas doem até hoje e não tem cura. Quando ela era criança, viveu com uma avó de criação, que tinha tido apenas uma filha, com quem não se dava bem. Então a avó de criação meteu na cabeça de minha mãe, de que ela tivesse muitos filhos porque com certeza, se um deles não a quisesse, os outros haveriam de querer. Aí eu cheguei na casa do Garcia, um bairro modesto de Salvador, uma casa branca de janelas azuis, que meu pai construiu com esmero e sacrifício. Contam que antes de eu completar um ano, eu arranquei um brinco da orelha da minha mãe e quase arranquei junto com o brinco, a própria orelha dela. A reação dela na hora eu não me lembro, como não me lembro do fato em si, mas certamente naquele momento ela decidiu que eu era o filho que não ia amá-la, como a sua avó postiça havia previsto, e eu paguei o pato. Tive aniversários boicotados, fui ameaçado de ter a língua cortada aos três anos de idade, por ter dito um palavrão e naquela hora perdi a minha voz de comando por muito tempo, perdendo a fala, o controle da situação, ficando em silêncio nos momentos mais decisivos ao longo da minha vida.
           Mas na minha vida tinha uma outra mulher, irmã da minha mãe, que se chama dona Neuza, Dêdê para os íntimos. Dêdê era solteira e morava lá em casa quando eu nasci e como ela era solteira, não tinha filhos, e a minha mãe engravidou logo em seguida, ela ficou cuidando de mim, da maneira que podia, quando a autoridade da irmã permitia, e me deu o amor, carinho e atenção, que eu nunca tive da minha mãe biológica. Quando ela chegava na casa do Garcia era como um dia de sol, daqueles de verão baiano, céu azul, límpido, uma festa! Passar uns dias na casa da Caixa d’água, casa humilde dos meus avós onde ela morava a maior parte do tempo, só valia a pena porque ela chegava no final da tarde, cansada do trabalho na repartição pública e me cobria de beijinhos e carinhos sem ter fim. Quando ela dormia no Garcia, dormia na minha cama comigo e eu amei aquela mulher profundamente, e ainda a amo, pois o verdadeiro amor nunca acaba. Afinal, quando eu quebrei a testa ao escorregar no chão encerado, foi ela que me levou para o pronto socorro, com Ribeiro, meu pai, dirigindo e mordendo os beiços, nervoso. Teve um tempo e até a bem pouco tempo, acreditei que eu era filho dos dois, de Ribeiro e de Dêde. Quando eu adoecia ela velava, e só saía do meu lado quando eu ficava bom. Quando ela foi atropelada na Pituba, bairro aonde passávamos o verão, eu pirei. Eu tinha seis anos e não podia conceber a minha rainha danificada, em cima de uma cama. A cada internação dela, mais tarde, quando os artrites chegaram, em conseqüência daquele atropelamento, eu me internava junto, sofria junto, e chorava sozinho e escondido, com medo de perde-la. Quando eu tinha algum problema era com ela que eu desabafava, e ela me escutava atenta, amorosa, aconselhando o melhor, querendo sempre o melhor para mim. Quando eu comecei a participar dos festivais de musica, ainda adolescente, sonhando em ser um campeão da canção, ela era que comandava a torcida organizada e como eu nunca ganhava o primeiro premio, por diversas vezes tive que apartar discussões dela com os jurados injustos, como ela os chamava. Depois mudei para o Rio de janeiro, casei e como ela, não tive filhos. Mas ela sempre esteve ali presente, as vezes ciumenta dos meus relacionamentos, como toda boa sogra, as vezes apoiando financeiramente, a minha vida de artista mambembe.
          Dêdê foi o alivio que Deus me mandou para eu suportar a tirania de dona Nalva. Durante toda a vida ela só conseguiu ver em mim a imagem perfeita, o cara sem erros, inteligente, perfeito. Um amor incondicional e incrivelmente bonito que se explicação houver, esta só pode ser encontrada na possibilidade da existência de vidas anteriores. Um amor sem interesses e mútuo, portanto verdadeiro. Ela foi a janela que Deus abriu para que eu não me tornasse um animal, um bicho solto no mundo, um criminoso ou psicopata, que é o perfil daqueles que crescem sem o insubstituível amor de mãe. Ela abriu as portas para que outras mães postiças surgissem na minha vida, como a Maria Lucia, minha ex vizinha no Leme, por exemplo, quando vieram as separações e eu optei pela minha vida de solteiro. Mas nada, nenhuma outra mulher me amou tanto quanto dona Neuza, minha mãe amorosa de verdade, nem nenhuma outra mulher foi amada tanto quanto eu amei e amo a dona Neuza, a quem devo o melhor da minha vida e espero ainda, retribuir pelo menos a metade do muito que ela fez por mim nesta vida. Por enquanto fica aqui o meu aplauso e a minha gratidão eterna.


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ALÉM DE QUEDA, COICE.

         
          Assim costumava se referir a minha tia Nilza às interpéries da vida. "Além de queda, coice", uma visão pessimista naturalmente, pois como se não bastasse cair do cavalo, o animal ou a vida, ainda lhe brindaria com um belo coice, ou com um tiro de misericórdia. Não costumo ser pessimista, sou piscianao, sonhador e conto sempre, em qualquer situação, que tudo vai dar certo e os meus sonhos vão se realizar. As vezes eu acerto, outras vezes, não. Ultimamente venho me sentindo como a minha velha tia pessimista, péssimo. Como se não bastasse as duas semanas de calor insuportável e initerrupto, que estávamos vivendo não só na cidade maravilhosa, como em boa parte do sul e sudeste do país, tivemos a dois dias atrás, um blecaute nacional, que só na cidade do Rio de janeiro, durou cerca de seis horas.
          Como se não bastasse, o tal blecaute, que deixou as escuras dezoito estados da federação, não tem ainda, uma explicação convincente para sua causa. Culparam uma tempestade de raios que atingiu as estações geradoras de energia, que por sua vez, por uma questão de segurança, desligaram automáticamente outras tantas estações, deixando o país as cegas, gerando desconforto, insegurança, medo, e causando pânico, prejuízo e desespero em milhões e milhões de pessoas. Teve gente que ficou presa em elevador, gente que foi assaltada, gente que foi assaltada e assassinada, teve arrastão, acidente de transito aos montes, teve gente que teve os eletrodomésticos da casa queimados e gente que teve a própria casa incendiada, pela sobrecarga de energia, quando esta voltou. Teve até, é claro, partida de futebol suspensa e adiada.
          Se na luz do dia, as claras, já vivemos na bagunça em que vivemos, imaginem à noite, sem luz durante horas. Essas coisas nunca acontecem as dez da manhã por exemplo. As tempestades de raio só acontecem na calada da noite. E como se não bastasse, aqui no Rio, vários bairros estão com o abastecimento de água reduzido. Ontem, Botafogo e Flamengo ficaram sem água o dia inteiro, sem falar nos semáforos da praia do Flamengo, que hoje à tarde ainda estavam em pane, sem funcionar, obrigando aos pedestres a atravessarem as pistas, correndo o risco de serem atropelados.
           Como se não bastasse teve missa de sétimo dia da minha amiga hoje pela manhã, visitas de família que quase sempre resultam em noticias desagradáveis, e aí eu disse basta! Entrei no Botafogo praia shopping e no quarto piso encontrei o paraíso, um belo sorvete de iogurte, com calda e gotas de chocolate e pedacinhos de kiwi que me levaram ao limbo e me fizeram voltar ao normal da minha rotina, ou seja, ser simplesmente feliz. O que seria da vida se não fosse o sorvete de iogurte? Os raios que se partam, e os macacos que se mordam. Voltei para casa, acendi os incensos, tomei um belo banho, mas deixei dois baldes cheios caso ela resolva faltar de novo amanhã, e fui tocar o meu violãozinho, cantando baixinho para me acalmar ainda mais. Nunca foi tão fácil ser feliz. Sorvete de iogurte, violão e incenso. Além de queda coice, uma ova! Amanhã o dia vai amanhecer lindo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

PARTIDO VERDE NELES

          Já estamos na segunda semana de calor intenso na cidade do Rio de janeiro. Em plena primavera, estamos sofrendo um calor anormal e sufocante. No mes passado tivemos um período intenso de chuvas na cidade, que causou transtornos a toda população carioca. Isso aparentemente não é nada comparado ao que tem sofrido a população dos estados de Santa Catarina e Paraná, com os temporais que tem castigado aquela região, sem falar nos tufões das Filipinas, nos terremotos da Indonésia, nos tornados e furacões do Caribe e Estados Unidos, que tem ceifados milhares de vidas.
          O cinema catástrofe acena com mais um sucesso de bilheteria, o filme "2012", o ano em que o mundo vai acabar. Ainda não vai ser em 2012, mas se continuarmos assistindo passivamente ao desmatamento do planeta, ao absurdo da mudança do curso dos rios, à emissão incontrolável de gases toxicos na atmosfera, e outras mazelas que tem alterado a temperatura do planeta, causando tantas catástrofes ambientais, 2012, o filme, não estará muito longe de acontecer na realidade. Vamos então descruzar os braços e fazer a nossa parte.
          No ano que vem elegeremos mais uma vez o presidente do nosso país. O Partdido Verde acena com uma candidatura de peso e categoria, a Marina Silva, uma mulher cuja história de vida já a credencia para a vitória. Sendo o Brasil um país onde está localizada a maior floresta do mundo, o pulmão do planeta, um país rico em recursos naturais, que está em franca ascensão no cenário político internacional, é hora de parar com a demagogia dos nossos políticos profissionais, que falam muito e agem pouco, e eleger uma presidenta, oriunda da floresta, que conhece como poucos a importancia da preservação dos recursos naturais do planeta, para que a raça humana seja também preservada e para que as futuras gerações possam viver em um mundo mais saudável. Elegendo a Marina Silva e fortalecendo o Partido Verde, estaremos caminhando, a partir do Brasil, para um futuro mais digno e saudável aqui no planeta Terra. Partido Verde neles!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

SORTE DA SEMANA

"AS COISAS MELHORANDO, FICAM BOAS"


BOA SEMANA PARA TODOS.

sábado, 7 de novembro de 2009

VIVA MARIA LUCIA! VIVA!






          Morreu Maria Lucia, 89 anos e pique de menina. Ela era uma divertida senhora, pequenina, bem falante e bem humorada, que tinha uma fé inabalável e que tratava a todos de “menina ou minha filha”, mesmo que o interlocutor fosse o padre da paróquia e ela, entretida na conversa, sempre animada, sempre pra cima, nem percebia o erro de gênero. Éramos todos, “suas meninas”. Ela entrou na minha vida quando eu me mudei para o prédio onde ela morava, no Leme, eu no 702 e ela no 802, no ano de 1994. No início daquele mesmo ano ela havia perdido o seu único filho, Antonio Maria, e como eu e o Antonio tínhamos quase a mesma idade, ela substituiu o amor de mãe saudosa e me adotou como filho. Fomos mais do que isso, fomos bons amigos.

          Maria Lucia era paraense de Belém e no início dos anos oitenta, depois de ficar viúva, resolveu se mudar para o Rio de janeiro de mala e cuia, trazendo a tira colo, o Antonio e a Raimundinha, sua dama de companhia, e no colo da Raimundinha, a Ana Claudia, filha desta, com apenas meses de vida. Vieram de ônibus, atravessando metade desse país imenso, com os corações esperançosos, prontos para o que desse e viesse, como reza a cartilha do nortista que deixa a sua terra natal. Antonio partiu cedo e Maria Lucia se dedicou à igreja do Rosário, dirigida pelos frades dominicanos, na paróquia do Leme. Foi quando nos conhecemos.

          Eu estava morando só pela primeira vez, depois de doze anos de uma relação que acabara naquele ano de 94. Não que eu fosse de fazer festas, mas saboreando o doce sabor da liberdade e o amargo da solidão, às vezes as minhas visitas, íntimas ou não, se estendiam até mais tarde, e o som da cantoria e do violão também, o que certamente incomodava as corujinhas que moravam no andar de cima. Mas as corujas nunca reclamaram, também dormiam tarde e deviam, certamente matar a saudade dos barulhos que o Antonio Maria devia fazer, quando era vivo e jovem como eu. Corujas era como elas se auto intitulavam, porque como dizia Maria Lucia, elas eram como as corujas, que nunca dormem, mas estão sempre prestando atenção a tudo, nos mínimos detalhes.

          Numa tarde de domingo, Raimundinha tocou a campainha do meu apartamento e quando eu atendi, ela sorrindo encabulada, me entregou, enrolado em um pano, um prato com uma comida típica do Pará, e sem olhar nos meus olhos me disse: Dona Maria Lucia mandou para o senhor. Eu não lembro se era pato no tucupi ou no tacacá, o que eu me lembro, era que estava delicioso e coincidentemente, eu que adoro cozinhar, naquele domingo, tinha resolvido dar folga ao fogão. Estava ali selada a nossa amizade. Elas me pegaram pelo estomago. E vice e versa. Quando eu preparava alguma coisa típica da Bahia, também mandava um pratinho para o 802.

          Um dia ela apareceu na minha casa, acompanhada de mais três senhoras e da sua inseparável, Raimundinha, levando uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, dizendo que aquela imagem peregrinava pelas casas do bairro e que em cada casa, a imagem ficava por uma semana, e que a minha casa havia sido escolhida naquela semana, caso eu concordasse em hospedar a santa. É claro que eu aceitei, e a santa se hospedou algumas outras vezes ao longo dos quatro anos e meio em que fomos vizinhos. Todos os dias, de segunda a sexta, pela parte da manhã, Maria Lucia fazia o seu trabalho voluntário na paróquia do bairro, ajudando aos pobres do morro do chapéu mangueira e também aos moradores de rua do bairro.

           Depois eu mudei para Botafogo, e Maria Lucia e as suas aias, Raimundinha e Ana Claudia, que eu apelidei de meu “trio elétrico”, foram participar do almoço de inauguração da casa nova. Na verdade, toda eletricidade daquele trio, estava concentrada nela, já que as suas aias falavam pouco, eram tímidas, enquanto Maria Lucia, chefe do trio, era uma tagarela de marca maior. Quando eu fui viajar e tive que deixar o Rio de janeiro por alguns anos, era para Maria Lucia que eu ligava, lá de fora, para matar as saudades, saber das novidades e dar risada, pois ela sempre tinha uma piada na ponta da língua. Mesmo nas situações trágicas, ela sempre arrumava um jeito de ver o lado positivo da vida, pois segundo ela mesmo dizia, “as coisas melhorando, ficam boas”.

            Voltei das minhas viagens para tentar me restabelecer no Rio de janeiro outra vez. Fui morar no Flamengo, ainda mais longe do leme e pela primeira vez em quinze anos, eu esqueci de cumprimentá-la no dia do seu aniversário, 29 de julho. Nem isso abalou a nossa amizade. Ela compreendeu o momento difícil e atribulado que eu estava passando e como boa mãe, perdoou o meu esquecimento.

             Quatro semanas atrás, Maria Lucia teve uma anemia forte, emagreceu, ficou fraquinha, mas não perdeu nem a alegria de viver, nem o bom humor. Três dias antes da sua partida eu liguei pra ela e fizemos planos de caminhar na praia para treinarmos para a maratona das olimpíadas de 2016. Tudo parecia bem. No dia seguinte a esta nossa conversa, ela foi internada com pneumonia e 24 horas depois nos deixava. Ao seu enterro, compareceu todas as amigas da paróquia, do prédio, e do bairro, todas com mais de setenta e tantos anos, num sábado infernal, de sol inclemente, 40 graus de uma primavera incomum no Rio de janeiro. Como eu era o mais jovenzinho das suas “meninas”, tive forças para acompanhar Maria Lucia até a última morada, segurando a alça do seu caixão, como fazem os bons filhos. Morreu Maria Lucia, vou sentir saudades das suas conversas, das suas piadas, das suas histórias, do seu bom humor. Que viva Maria Lucia, viva!



Ricco Duarte

Rio de janeiro, 07 de novembro de 2009.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

SORTE DO DIA

"QUANDO A VIDA LHE DER AS COSTAS

     PASSE A MÃO NA BUNDA DELA
  
        E SIGA EM FRENTE"



BOM FINAL DE SEMANA PARA TODOS.

O VERBO NO PASSADO

OLHA NOS MEUS OLHOS
DIZ QUE NÃO ME QUER
SÓ ASSIM EU VOU PODER PARTIR
E TE ESQUECER
PRA CUIDAR DE MIM
PRA TENTAR SOBREVIVER
LARGA A MINHA MÃO
DIZ QUE EU NÃO SOU MAIS
O DONO DO TEU CORAÇÃO
SÓ ASSIM EU VOU PODER SEGUIR
E ME PERDER
PRA TENTAR SORRIR
DESSA ILUSÃO
FOI BOM ENQUANTO O TEMPO QUIS
EU SEI
EU SEI QUE A GENTE VACILOU TAMBÉM
CHOROU
SORRIU
GOZOU
FINGIU
BEIJOU FERIU E SE ARRANHOU
CHEGOU
PARTIU
ENTROU
SAIU
GRITOU PSIU!
DESAFINOU
SÓ DEUS SABE O QUANTO AMEI
O VERBO NO PASSADO
É ORGULHO EU SEI
MAS SÓ DEUS
SÓ DEUS
SÓ DEUS.

Letra e música de Ricco Duarte.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

ESSA PESSOA



TEM UMA PESSOA QUE SEMPRE ME ACODE
E QUE TEM UM CORAÇÃO MAIS DESASSOSSEGADO QUE O MEU.
PENSEI NÃO SER POSSÍVEL HAVER ALGUÉM ASSIM
MAS HÁ, E AINDA ASSIM ME ACODE COM O SEU SACUDIMENTO.
TEM O CORPO FRANZINO
PÉS E MÃOS DE CRIANÇA
UNHAS ROÍDAS ATÉ A ALMA
VINCOS NO ROSTO E NA ALMA
E AINDA ASSIM ME SACODE COM O SEU ACOLHIMENTO.
JUNTOS, SOMOS SILÊNCIO E AIS
AS VEZES ELÉTRICOS
AS VEZES ESTÁTICOS
SEM PASSAR DO VOLUME QUATRO, JAMAIS!
JUNTOS, JAMAIS SONHAMOS
MESMO QUANDO ESTAMOS SEPARADOS
E A FALTA PODE NOS FAZER PENSAR SER POSSÍVEL
SONHAR O IMPOSSÍVEL
JAMAIS SONHAMOS.
E RIMOS, RIMOS MUITO DAS NOSSAS GRAÇAS
NOS NOSSOS MOMENTOS DE RELAXAMENTO
AS RISADAS FROUXAS DOS AMANTES.
JUNTOS, SOMOS ETERNOS
POR QUE NOS SABEMOS PASSAGEIROS DE NÓS MESMOS
E JURAMOS COISAS IMPOSSÍVEIS
ÄS VEZES INAUDÍVEIS, SUSSURRADAS, CALADAS
COISAS QUE SÓ OS OLHOS PODEM DIZER.
ESSA PESSOA NÃO TEM ENDEREÇO
TELEFONE, CAIXA POSTAL, CEP, EMAIL, NADA
TALVEZ NEM MESMO EXISTA DE FATO
E APENAS HABITE A MINHA IMAGINAÇÃO
FARTA DE TANTO DESASSOSSEGO.
FERNANDO SE SENTIRIA ALIVIADO AO SABER DESSA PESSOA
QUE VAI E VEM, ENTRA E SAI, PEDE, MANDA E NÃO AGRADECE.
ÁS VEZES ATÉ, EU OBEDEÇO
QUANDO ME APETECE O ATO DE ACEITAR E OBEDECER
E ASSIM, PODER SOSSEGAR, DORMIR, SONHAR E AGRADECER

terça-feira, 3 de novembro de 2009

SAUDAÇÕES TRICOLORES!

          E aí? Se divertiram? Beijaram na boca? Disseram e escutaram palavras gentis? Regaram as suas plantinhas? Assistiram a bons filmes? Escutaram boa música?Tomaram chuva na parada gay? Assistiram ao início da redenção do futebol carioca? Se você respondeu sim a cinquenta por cento dessas perguntas, parabéns!
          O meu final de semana começou com uma indicação de um amigo meu tricolor, o produtor Bruno Martins, sobre um site que voces não devem deixar de acessar e baixar os filmes ali indicados, principalmente o "Addendum",  o site é http://www.zeitgeistmovie.com/. Baixei o addendum e pirei. Naquele dia decidi que quem não se divertir nesse mundo no outro será advertido, pois ninguém está aqui a passeio. Daí que eu fui me divertir, trabalhando, porque eu não tenho culpa se o meu trabalho é a minha diversão, cantei lá no Vinícius, a única casa de bossa nova do Rio de Janeiro, berço da bossa.  A casa esteve cheia como sempre, porque quem é fã de bossa não tem outro lugar para ir, só o Vinícius, que a partir de março virá de cara nova com 120 lugares, camarim para os artistas, banheiros limpos e um staff bilíngue, como manda o figurino, mas mesmo assim precisamos de mais casas de boa música ao vivo nesta cidade.
         O domingo foi só de alegrias. Teve a parada gay debaixo de chuva e como estava chovendo, eu fiquei em casa fazendo a segunda coisa que eu mais gosto de fazer quando não estou fazendo música ou escrevendo, assistir a partidas de futebol. Primeiro o Botafogo ganhou com méritos do Internacional, lá dentro e deu uma respirada. Depois veio o jogo do meu Fluzão, contra o Cruzeiro, lá em Belo horizonte. Como o Botafogo já havia ganho fora de casa, fiquei apreensivo achando que um raio não caíria duas vezes no mesmo dia. Duas equipes cariocas ganharem fora de casa para equipes candidatas ao título era demais. Mas graças a Deus aconteceu. O Flu começou perdendo de dois a zero e aí no intervalo, o Cuca mexeu no time e certamente com o brio dos jogadores e a equipe voltou outra, deixou o Cruzeiro atônito e virou o jogo. O Fluminense voltou definitivamente a sonhar com a primeirona em 2010. Pela torcida linda e apaixonada que temos, merecemos ficar, o Rio merece o Flu na primeira para sempre. Ainda faltam cinco jogos, podemos ganhar os cinco se assim quisermos, e sair dessa para sempre. Viva o Fluminense! Viva o futebol carioca! Viva a vida! Saudações tricolores e boa semana para todos.
                 

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

SORTE DO DIA

"QUEM NÃO SE DIVERTIR NESSE MUNDO
 
  NO OUTRO SERÁ ADVERTIDO"

BOM FINAL DE SEMANA PARA TODOS.

O EQUÍVOCO

Quando nós dois partimos

Cada qual para o seu lado

Fiquei assim sem destino

E sem motivos pra voltar pra casa.

E assim perdido no equívoco

Pensando que o amor findara

Andei a deriva pelo mundo

E quanto mais eu caminhava

Mais me desencontrava.

Quanto mais distante dos meus olhos

Dentro dos meus pensamentos estavas

Mais fundo e mais presente

Que no minuto anterior

Marcado na memória da minha alma

Com iniciais de ferro e fogo

Com que se marca o gado.

Portanto Serei metade pela vida inteira

Complemento do que se foi

E que me deixou assim

Dessa maneira.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A BATERIA DO CELULAR

          NO EXATO MOMENTO EM QUE ÍAMOS DIZER ADEUS, EU TE AMO, LIGA SEMPRE QUE PUDER, MANDA UM EMAIL, A BATERIA DO CELULAR ACABOU E NÃO HAVIA TEMPO PARA MAIS NADA. A FILA DE EMBARQUE JÁ ANDAVA LONGE, OS COMISSÁRIOS OLHANDO IMPACIENTES, AQUELA METADE AMANTE SE DESPEDINDO AFLITA, CORAÇÃO APERTADO, OLHOS DISTANTES, PLUGADOS NO OUTRO LADO DE UMA LINHA IMAGINÁRIA, QUE DIVIDIA A FRONTEIRA ENTRE A INCERTEZA E A SAUDADE.
          PARTIMOS SEM DIZER ADEUS, EU TE AMO, LIGA SEMPRE QUE PUDER, MANDA UM EMAIL, NADA. SIMPLESMENTE O SILÊNCIO DA LIGAÇÃO INTERROMPIDA, FOI ROMPIDO PELA VOZ DO COMISSÁRIO IMPACIENTE, AVISANDO QUE EU ESTAVA ATRASADO PARA O MEU VÔO.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

AMOR PERVERSO

EU TE AMO MEU AMOR
ACREDITE NISSO POR FAVOR
E QUERO QUE SOFRAS POR ISSO
QUERO QUE SE TORTURE
POR EU TE AMAR TANTO
NÃO QUERO QUE OLHES MAIS
PARA OS LADOS
NEM PARA ADIANTE
NEM PARA TRÁS
OLHE APENAS PARA MIM
VIVA SOMENTE PARA MIM
EU SOU O TEU AMOR
E QUERO QUE PADEÇAS COMIGO
QUERO QUE FIQUES DOENTE
QUE PERCA AS FORÇAS
E QUE DEPENDAS DA MINHA MÃO
PARA TODAS AS COISAS
QUERO QUE FALES PELA MINHA VOZ
QUE VEJA COM OS MEUS OLHOS
COMA COM A MINHA BOCA
E ESCUTE COM OS MEUS OUVIDOS.
QUERO TAMBÉM QUE TE PARALISES
PARA QUE EU SEJA AS TUAS PERNAS
E A TUA CADEIRA DE RODAS
PARA QUE NUNCA MAIS POSSAS CAMINHAR
SEM A MINHA AJUDA
QUE EU SEJA AS TUAS MULETAS!
QUERO QUE CHORES TODOS OS DIAS
POR TERES ALGUÉM COMO EU
QUE TE AMA MAIS QUE TUDO
QUE TE ATA AO PÉ DA CAMA
E QUE TE TRANCA POR FORA
PORQUE SÓ EU TENHO A CHAVE
DO QUARTO ONDE TU CONFINARÁS
NÃO TENS COMO ESCAPAR PORTANTO.
EU SOU A RÉSTIA DE LUZ QUE LHE CABE
A ÚNICA JANELA DA TUA VIDA
O TEU AMOR PERVERSO
A TUA DOR E O TEU ALÍVIO
A ÚNICA BOCA QUE TE BEIJA
O TEU ÚNICO ABRAÇO
PORQUE SÓ EU POSSO
TIRAR O FRIO INTENSO QUE SENTES
NO TEU CORPO E NA TUA ALMA
EU SOU O AGASALHO DA TUA ALMA.

COCAÍNA





NOITES EM CLARO
DIAS DE ESCURIDÃO
RUÍNA DA ALMA
DERROTA DO CORPO
HORAS DE SOLIDÃO
DESESPERO
MENTIRA
DEPRESSÃO
AVE QUE NÃO VOA
COCAÍNA
PÁGINAS EM BRANCO
NA VIDA DE QUALQUER PESSOA



segunda-feira, 26 de outubro de 2009

MÚSICA E FUTEBOL

          Acompanhando a rodada dos campeonatos brasileiros da série a e b ( sim, eu também acompanho a série b) me chamou especial atenção a grande quantidade de jogadores com nome de artistas e cantores da nossa música popular. A relação música e futebol é única, o canto das torcidas nos estádios, as charangas e baterias de escolas de samba a empurrar os times de coração para frente, são uma coisa emocionante e um espetáculo a parte, talvez por isso as mães na tentativa de unir o útil ao agradável, na esperança de que se o filhote não der certo no futebol, vai dar certo na música ou pelo menos ter nome de artista, decidiram batizar os seus rebentos com o nome dos nossos ídolos da canção. O caso mais famoso é o do nosso rei, Roberto Carlos, que inspirou provavelmente os pais do nosso craque da seleção. Neste final de semana anotei alguns outros nomes dos nossos artistas da bola que também tem nomes de artistas da música. Só na partida entre Atlético Goianiense e Brasiliense ( sim, eu sou louco por futebol, assisto a qualquer jogo, é terapêutico ), tinha Fagner, Fábio junior, Paulo Ricardo e Leo jaime, ou seja, não era um simples jogo, era um clássico pop, de segunda é claro. No enjoado time do São Caetano, tem o "Xuxa", xará da não menos enjoada estrela mirim de várias gerações do Brasil. No meu querido Fluminense ontem jogou o jovem Dalton, imagino ele chegando em casa depois de mais uma eletrizante e sofrida partida do Fluzão e pedindo prá mãe ou prá namorada, "cuida bem de mim". Antonio Carlos tem vários e torço para que alguns deles tenham sido batizados em homenagem ao nosso Tom Jobim. E indo de uma ponta a outra, não vamos esquecer do rei do brega escrachado nordestino, o Falcão, que provavelmente adotou esse nome em homenagem ao nosso craque e hoje comentarista da Globo. Viva a música e ao futebol também e se alguem souber de algum outro jogador com nome de artista é só me escrever. Paz nos estádios e no mundo.

domingo, 25 de outubro de 2009

DOMINGO NO ATERRO DO FLAMENGO.

          Pois é, me mudei há pouco tempo para o bairro do Flamengo e estou adorando. Apesar do nome, é um bairro tranquilo e charmoso e fica bem perto das Laranjeiras... Além da minha rua, a Oswaldo Cruz, que considero a mais bonita da cidade, o que eu mais curto no bairro é o Aterro, um dos parques mais belos do mundo. Aos domingos então, quando as pistas de alta velocidade são fechadas para lazer dos nossos habitantes, o Aterro fica ainda mais bonito, mais colorido, e como é imenso, muito mais tranquilo. As famílias podem passear em paz, jogar bola, fazer jogging, andar de bicicleta e as crianças se divertem a beça com as suas pipas colorindo o céu da cidade. Mas o que eu mais gosto mesmo é o último domingo de cada mês, quando a Secretaria municipal de cultura promove às duas horas da tarde, shows de choro, a essência da música brasileira. Hoje a atração foi o sensacional Maurício Carrilho e o seu grupo, que nos brindou com música da melhor qualidade, uma hora e meia de boa música, muito boa mesmo, que nos recarregou as baterias para enfrentar mais uma semana de batalha. E aqui vai um serviço de utilidade pública, no próximo ultimo domingo de novembro, dia 29, a atração vai ser o espetacular Carlos Malta, na minha opinião um dos maiores saxofonistas do Brasil, quiçá do mundo. Não percam! E tenham todos uma semana de paz.

sábado, 24 de outubro de 2009

TRICOLOR DE CORAÇÃO

          Por um abará, isso mesmo, por causa de um abará eu fui torcedor rubro negro por quinze dias. Era dia de Ba x Vi, o maior e único classico do futebol baiano e a primeira vez que eu fui a um estádio de futebol, aos dez anos de idade. Fui ao estádio levado pelo meu irmão mais velho, tricolor apaixonado e por dois primos meus, torcedores do Vitória. O Bahia tinha dez vezes mais torcedores que o Vitória, e os meus primos na tentativa de arregimentar mais um torcedor para a sua pequena torcida e sabendo que eu era louco por abará ( o mesmo que acarajé, só que cozido na folha de bananeira, uma delícia!), me compraram por um abará para eu ficar com eles do lado rubro negro. O Vitória ganhou o jogo por um a zero e eu fiquei na ilusão de que eles eram os melhores. Nas partidas seguintes, o Vitória perdeu todas para times pequenos do futebol baiano e o meu irmão mais velho, incomformado com aquela ovelha negra na familia, resolveu me levar para assistir a um Bahia x Ypiranga, o terceiro time em força de torcida naquela época. O Bahia ganhou o jogo, ganhou o campeonato e eu fui na onda do meu irmão, torcendo apaixonadamente pelo glorioso Esporte clube Bahia até o dia em que fui às Laranjeiras, assistir a um Bahia x Fluminense pelo campeonato brasileiro.
         Eu já estava morando no Rio de janeiro fazia alguns anos e fui ao jogo prestigiar o tricolor baiano e comemorar o meu aniversário, mas ao chegar lá, além de não haver um só torcedor baiano no estádio, eu me apaixonei instataneamente pela torcida tricolor carioca. Uma gente linda, educada, bem nascida, lotando aquele pequeno estádio que hoje só serve aos treinos da equipe. Era um colorido contagiante. O Fluminense ganhou de tres a um e eu saí de lá cantando que era "tricolor de coração, do clube tantas vezes campeão" e fui tomar um porre com meus novos amigos de futebol e torcida.
         O dia seis de março de 1989 ficou no meu calendário como o dia em que eu me tornei tricolor de coração. Não, não foi uma traição, foi paixão a primeira vista, ninguém me pagou sequer um refrigerante, abará então nem pensar, isso não existe infelizmente no Rio, mas havia um sentimento de fraternidade naquela "playboizada" bonitinha e bem vestida e eu me identifiquei de cara, já que eu sempre fui também um almofadinha, um cara letrado, educado, que nunca gostou de confusão (até pisarem nos meus calos). De quebra esse é o time de coração de dois dos meus ídolos, Nelson Rodrigues e Chico Buarque, e tem no seu elenco de torcedores, alguns personagens ilustres do meio cultural brasileiro, como Jô Soares, Nelson Mota, Artur Moreira Lima e tantos e tantos outros, de maneira que junte-se aos bons e serás um deles. Preferí ficar na boa companhia.
          Títulos ao longo desses últimos anos foram poucos. Além do célebre gol de barriga do Renato em 1995 e da campanha fabulosa na libertadores de 2007, foram poucas as glórias tricolores. Fomos rebaixados tres vezes, e no momento em que escrevo estas linhas, estamos a caminho do quarto rebaixamento, mas eu não ligo( mentira, fico puto a cada derrota) mas não me arrependo de ter trocado o tricolor baiano pelo carioca. O baiano está a caminho da série C mais uma vez e tem um time que é a cara da Bahia, cafuso, digo, confuso. Já nós, não perdemos a pose jamais e convenhamos, a série B é bem mais animadinha que a série A, Vasco, Corinthians, Palmeiras, Gremio, Botafogo e o próprio Fluminense que o diga. O Flu gostou tanto que está quase voltando outra vez, mas eu sequirei tricolor carioca para sempre, acompanhando os jogos e roendo as unhas até o apito final do juiz de campo e do juiz do céu.


                                                    A torcida mais linda do mundo


      Torcida tricolor em Barcelona na final da Libertadores. éramos quatro mas fizemos um barulho...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

DÉJÀ VU

NA PRIMEIRA VEZ QUE EU TE VI

ERA MEIA LUZ

E O TEU ROSTO ESTAVA NA SOMBRA

ENTÃO PEGUEI A METADE ILUMINADA

E CORRI COM ELA PELA ESTRADA

PENSANDO TER PEGO

O RUMO CERTO.

PASSADO UM TEMPO

COM AS LUZES DA CASA ACÊSAS

TENDO A OUTRA METADE ÀS CLARAS

SENTÍ NO MEU CORAÇÃO UM APÊRTO

ERA EU DE NOVO

QUE TINHA ABERTO AS PORTAS DA MINHA ALMA

E COLOCADO O LIXO PARA DENTRO.

O VOVÔ MAIS SEXY DOS MARES

Trecho do romance "Jaime, o marinheiro"

A história do viúvo


Eu também contei as minhas histórias, melhor dizendo, estórias. Um navio é como uma pequena vila, uma comunidade onde vive um pequeno número de pessoas e como todo lugar pequeno, todo mundo sabe da vida de todo mundo. Isto eu percebi desde o meu primeiro contrato, daí que eu procurei me preservar ao máximo, dando o mínimo de informação possível sobre a minha privada. Ora, já não bastava ter que dividir cabine, aturar o ronco, os peidos, os arrotos e o mau cheiro de um desconhecido, e ainda ter que se fingir de intimo daquelas pessoas? Comigo não. Vida privada é vida privada e a minha, eu deixei em terra, a bordo eu era uma outra pessoa, ou melhor, varias pessoas. Inventei uma brincadeira de contar uma estória diferente para cada um. Sempre que me perguntavam algo sobre a minha vida pessoal, e eu percebia que era só por curiosidade, para passar adiante, eu inventava uma estória, de preferência dramática, porque o ser humano adora mesmo é ver a desgraça do outro. Como a estória de que eu era viúvo.

Sandra era uma peruana, descendente de japoneses, e trabalhava na recepção. Ela já estava naquela vida de navios há muitos anos e o seu grau de informação não passava da revista “hola”, ou “caras”, essas revistas de fofoca, de forma que ela era a fofoqueira mor do Brilliance. Sandra sabia da vida de Deus e o mundo, até da vida do Comandante. Se você queria saber das novidades, com riqueza de detalhes, perguntasse a Sandra, e ela lhe contava com o maior prazer.

Eu costumava sentar na mesma mesa todos os dias, seja no almoço ou no jantar, era uma mesa no canto, próximo a uma janela, para desfrutar da luz natural que eu não tinha na cabine. De vez em quando a Sandra vinha e sentava comigo para comer, e me contava as últimas, sem que eu perguntasse, é claro. Coisas do tipo, quem tinha comido quem na noite anterior, quem era veado, quem ia ser despedido e porque, e até quem tinha o pau pequeno e mau hálito. Sandra era um poço de cultura inútil. Num daqueles almoços em que eu era forçado a desfrutar da sua companhia, ela se estendeu até um pouco mais além da sobremesa e ficou ali, sozinha comigo, repassando o que não me interessava, até que ela me perguntou o que eu já estava esperando fazia um bom tempo.

- E você Jaime, você está sempre sozinho, raramente aparece no bar, nunca vem às festas, nem quando a bebida é de graça. Aposto que você tem uma namorada a bordo, ou será um namorado? Sabe como é, na vida de navio tudo é super normal.

Aquilo foi demais, mas não tanto quanto o que ela iria escutar. Eu abaixei a cabeça, fiz um ar de triste, fiquei calado por longos dez ou quinze cinco segundos, tempo suficiente para ela pegar na minha mão e dizer para eu não ficar encabulado, que podia desabafar, que ela não iria contar pra ninguém. Então eu respirei fundo e comecei a contar a minha estória solenemente, sem levantar os olhos da mesa, nem tirar a minha mão da dela.

- Sabe Sandra, eu não gosto de falar da minha vida pessoal, mas como você é de confiança eu vou lhe contar. Desde que a minha mulher morreu, de câncer, no cérebro, e eu tive que criar o meu filho sozinho, eu decidi que não iria nunca mais, ter outra pessoa na minha vida. A Rosana foi e é, o grande amor da minha vida, a mãe do meu único filho, a mulher que me amou, que se sacrificou por mim, a pessoa que eu mais amei e tenho certeza que foi a que mais me amou também, mais do que a minha própria mãe. A doença apareceu de repente, começou com uma dor de cabeça que não passava, quando os médicos descobriram já era tarde, ela morreu em menos de seis meses. Nosso filho tinha sete anos e eu tive que ser pai e mãe dele. Quando ele completou quinze anos, e já estava podendo se virar sozinho, apareceu esta oportunidade de vir trabalhar nos navios e eu aceitei. Deixei o meu filho na casa da minha mãe e aqui estou, para me esquecer desse passado, pois ainda me dói muito, a presença dela ainda é muito forte, por isso eu não vou as festas, e sou este cara triste que você está vendo.

Quando eu levantei os olhos, Sandra estava aos prantos, lágrimas de crocodilo rolavam dos seus olhinhos de japonesa emprestada. Eu segurei a sua mão com força e disse que estava tudo bem, que ela não chorasse, porque ali no navio eu era feliz, pelo menos tinha um trabalho que aliviava a minha dor e amigos de verdade como ela. Sandra enxugou as lágrimas e disse que sentia muito e me pediu desculpas por ter pensado mal de mim, que não tinha sido por maldade, mas como eu era muito calado, não conversava com ninguém, ela imaginou que eu tinha algum segredo. Eu respondi que tinha, mas que agora ela já sabia qual era e que não se preocupasse que eu estava bem, que eu tinha certeza que lá do céu, a Rosana estava olhando por mim e pelo nosso filho. Ela se despediu dizendo que já estava atrasada para o turno da tarde e foi embora me prometendo que iria guardar aquele nosso segredo a sete chaves.

Depois que ela saiu, eu fiquei na mesa segurando o riso por não mais de cinco minutos, terminando a sobremesa, quando chegou o Robert, um uruguaio que trabalhava no cassino e que tinha acabado de encontrar com a Sandra no corredor, fora do refeitório.

- Jaime, eu não sabia que você era viúvo, poxa cara sinto muito, encontrei a Sandra chorando no corredor e ela me contou a sua história.

Eu respondi contendo o riso.

- Pois é, ela lhe contou foi? Mas já está tudo bem, isso foi há muitos anos. Eu agora estou em outra.

Passei o resto daquele contrato sendo tratado como um idiota desamparado. As pessoas quando me encontravam, me olhavam como se eu fosse um coitadinho, mas não ousavam tocar no assunto. Eu me divertia imaginando o que eles comentavam pelas costas, e as coisas absurdas que especulavam. Aí eu fui me especializando no assunto, às vezes eu dizia, que nunca mais tinha conseguido ter uma ereção, que tinha ficado broxa, e me aproveitando disso, só comia quem me interessava de verdade, deixava me seduzir, me fazia de bobo e pimba, depois caía fora, como manda o figurino do bom marinheiro. Uma vez, para impor respeito, disse que o meu filho ia ser pai, e eu avô. Até ursinho de pelúcia ganhei de presente, de uma russa, que quis comer o vovô e me seduziu com um presentinho para o meu futuro netinho, acompanhado de um cartão que dizia: “para o vovô mais sexy dos mares”. Depois da russa, todo mundo queria comer o vovô, e eu segui tirando partido da situação, quando bem queria e a presa me apetecia.

AREIA MOVEDIÇA

Funda e sem consistência
Ela vai engolindo os passos dos desatentos
E tragando os sonhos dos ansiosos.
Primeiro ela te agarra como uma teia de aranha
E te gruda pelos pés e não te larga
Caiu no meio Dela
Não se mova
Fique parado
Reflita
Segure a respiração
Talvez um Deus te ajude
A sair dessa situação
É como não saber jogar xadrez
Cada movimento
Um passo em falso
E você vai afundando
Passo a passo
Na areia movediça da paixão.
Depois que ela engolir os tornozelos
O resto fica mais fácil
Ela vai te engolir as batatas
Com coxa e tudo
Te lamber o umbigo
E o seu peito desnudo vai arfar
Pedir por socorro
Gritar!
Os braços estendidos
Tentanto agarrar a última chance
A misericórdia.
Aí ela te lambe o pescoço
E te puxa mais pra dentro
Engolindo os ombros
O queixo
A boca.
Nesse ponto
O que falta é pouco
Em um segundo
Lá se vão Nariz
Olhos e ouvidos
E ninguém nunca mais
Vai poder te escutar
Nem te pegar pelos cabelos
A partir daí
É o fundo
O nada
A escuridão
Até que você acorde
Já era!
Engolido até o talo
Pela areia movediça da paixão.

O CANTOR GOSPEL


Trecho do romance "Jaime, o marinheiro"


A história do Martin.


Martin era um auxiliar de escritório natural da Guiana, ex colônia britânica e único país da America do sul cuja língua oficial é o inglês. Seus antepassados eram indianos e imigraram para a America para tentar uma vida melhor no novo continente. Nos conhecemos no Serenade, quando ainda estávamos no estaleiro e o navio não havia sido inaugurado oficialmente. Ele era um rapaz bonito, amigável, conversador e de boa instrução, tinha uns vinte e poucos anos e havia deixado duas filhas pequenas e a sua mulher grávida, em Georgetown, capital da Guiana. De vez em quando almoçávamos juntos no refeitório e ele me contava um pouco dos seus sonhos, que queria ser cantor, mas a vida dura que levava no seu país o obrigou a deletar este plano, logo depois que ele casou e constituiu família, então passou a cantar apenas na igreja, aos domingos. Martin era cristão convicto, falava muito em Deus e fazia constantemente citações da bíblia. Uma vez ele me mostrou uma foto de sua família, numa festa da igreja, ele, a mulher e as duas filhas pequenas. Uma família bonita e aparentemente feliz. Ele também aparentava ser uma pessoa feliz e tranqüila, com grande força de espírito, um cara lutador, que estava sempre fazendo trabalhos extras, para juntar mais dinheiro e sustentar a sua família, que logo iria ganhar mais um membro. Quando sua terceira filha nasceu, eu fui o primeiro saber. Comemoramos juntos, bebendo vinho no bar da tripulação até altas horas, conversando trivialidades, dando risada, celebrando o futuro daquela nova criança. Naquela noite eu sugeri que ele tirasse uma licença não renumerada de quinze dias, e fosse conhecer sua filha caçula, já que ainda faltavam seis meses para o contrato dele terminar. Ele disse que não, que uma passagem para a Guiana, custava muito dinheiro e que seis meses passavam rápido, o que eu entendi perfeitamente. O contrato do Martin era de oito meses e ele estava pensando em estender por mais dois meses. Dez meses no mar, dentro de um navio, trabalhando de sol a sol, bem, no caso de um navio, poderíamos dizer, trabalhando de lua a lua, que dá no mesmo.

Às vezes eu o convidava para sair e ele nunca aceitava pois estava sempre ocupado, fazendo hora extra, mesmo quando ainda estávamos no estaleiro, na Holanda, com Amsterdã a nossos pés, ele nunca saía do navio. Um dia eu perguntei se era a primeira vez que ele havia saído da Guiana, e ele respondeu que sim. Então lhe perguntei se ele tinha vindo trabalhar nos navios para ver o mundo como a maioria das pessoas, e ele disse que não, que tinha vindo trabalhar nos navios para fazer dinheiro para sua família, e que por isso não lhe interessava sair nos portos, que ele queria economizar para o futuro. Um caso comum na vida dos navios, trabalhar e fazer dinheiro, o que não era comum, era o fato de alguém nunca sair em nenhum porto, nem para respirar um ar diferente, ver outra paisagem, isso eu nunca tinha visto. Eu admirava muito a força de vontade daquele rapaz. O meu primeiro contrato terminou, eu fui de férias e quando voltei, seis semanas depois, o Martin ainda estava lá, no mesmo ritmo.

Sempre que ele podia, ele passava rapidamente pelos lugares onde eu estava tocando e ficava por alguns minutos escutando a música. De vez em quando também, ele aparecia no teatro no meio da tarde, quando eu estava treinando e numa daquelas tardes, ele me pediu para eu acompanhá-lo no show de talentos da tripulação, que iria acontecer dali a duas semanas. Eu aceitei com prazer e ensaiamos a canção que ele escolheu, uma balada gospel. Martin tinha uma voz bonita, afinada e na noite do show de talentos, ele ganhou disparado dos outros concorrentes. Eu fiquei impressionado com a força da sua interpretação, cheia de paixão e fé. Na hora da verdade ele cantou diferente dos ensaios, como um profissional, com belíssimos fraseados de jazz, como os negros norte americanos. Quando ele terminou, foi demoradamente aplaudido de pé, inclusive pela imensa torcida adversária, que era claro, a torcida filipina. Eu me vi diante de um dos maiores cantores que eu já havia escutado e sugeri que ele largasse aquela vida no mar e emigrasse para os Estados Unidos, pois ele poderia, com persistência, força de vontade e um pouco de sorte também, ficar rico em pouco tempo, cantando. Ele me respondeu que só cantava para louvar ao Senhor e que não pensava mais em fazer carreira, que isso era coisa do passado. Mesmo assim sempre que o encontrava eu o chamava de “meu cantor.”

Duas semanas depois do show de talentos, ele me apareceu no teatro, no meio da tarde. Sua fisionomia estava diferente, angustiada, parecia inclusive que ele tinha chorado, seus olhos estavam vermelhos. Assim que o vi, pude perceber que havia algo de errado com ele, então sorri e fiz um sinal com a cabeça para que ele se aproximasse e perguntei:

- Como vai o meu cantor predileto, o que vamos cantar hoje?

Ele respondeu que naquela tarde ele só queria escutar um pouco de música, que precisava mais do que nunca relaxar, e ficou de pé, ao lado do piano, o olhar fixo, distante, os olhos marejados. Eu percebi que ele precisava desabafar algo, então diminuí o andamento da música que eu estava tocando, que por coincidência era “you’ve got a friend,” do James Taylor e disse baixinho, que ele podia falar que eu estava escutando. Depois de um breve tempo em silencio, Martin começou a sua história.

- Você acha que existe crime perfeito?

Eu respondi que dependia do crime, mas que a maioria sempre acabava sendo descoberto, mais cedo ou mais tarde e perguntei por que ele tinha feito aquela pergunta. Ele não respondeu e depois de outra breve pausa prosseguiu.

- Sabe por que durante todo este tempo que eu estou aqui, eu nunca saí do navio?

Eu respondi que não com a cabeça e ele continuou, falando baixo e devagar.

- Eu estou aqui fugindo dos crimes que eu cometi. Eu resolvi fugir para o mar, para me auto punir, me aprisionei por vontade própria, pois eu não podia mais olhar nos olhos da minha família.

Eu perguntei o que aconteceu e fiquei dedilhando uma melodia aleatória, bem lenta, e ele continuou, desta vez sem interrupção.

- Eu já estava casado há quatro anos quando conheci um outro rapaz, também casado, mas que não tinha filhos e que trabalhava perto do escritório onde eu trabalhava, no centro da cidade. Sempre nos encontrávamos na saída do trabalho, no final da tarde, e começamos a sair. No principio era só amizade, saíamos para tomar cerveja e conversar, falar do futuro, das nossas famílias, essas coisas. Um dia aconteceu, fizemos sexo, uma, duas, três vezes, e nos apaixonamos. Ele largou a mulher dele e alugou uma casa no subúrbio de Georgetown, onde tínhamos os nossos encontros secretos. Minha mulher pensava que eu tinha outra mulher, pois eu chegava sempre tarde em casa e às vezes dormia fora, na casa dele, com a desculpa de que estava fazendo hora extra no emprego. Ele começou a me pressionar para que eu também largasse a minha mulher e fosse viver com ele, mas isso era impossível, eu tinha medo que as pessoas descobrissem, cidade pequena você sabe como é, todo mundo se conhece, além do mais eu sou cristão, eu era conhecido por todo mundo no bairro e a vizinhança começou a me olhar desconfiada. A minha mulher começou a me pressionar, queria que eu confessasse porque o meu comportamento havia mudado tão radicalmente, queria saber quem era a mulher que tinha virado a minha cabeça. Até então eu não sabia que era bissexual, nunca tinha me acontecido antes, eu nunca tinha me interessado por nenhum outro homem, isto é contra a lei de Deus e eu não podia lhe contar a verdade. Pensei em me matar, mas isso também é contra a lei de Deus. Então ele também começou a me pressionar ainda mais, dizendo que iria contar toda a verdade para a minha mulher, que ele tinha largado a família dele por mim e que eu também tinha que fazer o mesmo. Ele não entendia que isso era impossível para mim, não entendia que aos olhos de Deus o que estávamos fazendo era completamente errado. Eu fiquei apavorado e no desespero, fiz o pior. Apareceu esta oportunidade de vir trabalhar nos navios e eu me inscrevi, sem que ele soubesse, é claro, depois que eu fui aprovado e os papéis ficaram prontos, dois dias antes do meu embarque eu o envenenei.

Nesse momento eu parei de tocar a melodia que eu estava dedilhando, enquanto ele prosseguia com a sua história.

- Coloquei veneno em sua bebida e o vi agonizar ali diante dos meus olhos. Depois apaguei minhas digitais e qualquer vestígio meu naquela casa, e deixei o corpo dele lá, como se ele tivesse cometido suicídio. Eu tive medo que quando eu viajasse, e ele descobrisse, ele contasse tudo para a minha mulher e arruinasse com a minha vida, então o matei, e fugi para o mar. Mas desde então eu não tenho dormido uma noite sequer em paz, entende Jaime? Quando eu fecho os olhos, vejo o rosto dele implorando por ajuda, a sua agonia nos minutos finais, o veneno lhe corroendo as entranhas e ele morrendo aos poucos, em sofrimento. Agora faltam dez dias para o meu contrato terminar e não sei o que me espera quando eu voltar para casa, não sei se a história do suicídio deu certo, não sei se a policia encontrou alguma pista minha, tenho medo de voltar e ser preso.

Quando ele fez uma pausa, eu estava perplexo com o que acabara de escutar, mas procurei não aparentar nada, e disse que na minha opinião, tudo era possível na vida, que eu não era nem cristão nem homossexual, mas que achava perfeitamente possível que duas pessoas do mesmo sexo se apaixonassem, mesmo sendo casadas com outras pessoas, mas que entendia o pânico dele, por morar num lugar pequeno onde todos se conheciam. Depois perguntei por que ele tinha me escolhido como cúmplice da sua história. Ele disse que eu era a única pessoa naquele navio em que ele podia confiar e que ele não agüentava mais conviver com este segredo, que tinha que contar para alguém senão ele iria enlouquecer, e me perguntou assustado se eu iria delatá-lo. É claro que eu o tranqüilizei, dizendo que não, que aquela história morreria comigo, que ele podia realmente confiar em mim, e que eu tinha certeza que não ia acontecer nada com ele, que quando ele chegasse em casa, iria encontrar sua família renovada, com mais um bebê para criar e que com o tempo, agora que ele desabafou, ele iria esquecer tudo, e que eu esperava vê-lo em dois meses outra vez. Ele me disse que em um mês, porque havia pedido apenas um mês de férias. Então encerramos a conversa, ele se despediu e foi embora do teatro, continuar o seu trabalho.

Naquela mesma noite nos encontramos no bar e eu procurei não tocar mais no assunto, nem naquela noite, nem nos dez dias restantes em que o Martin ficou a bordo, antes de ir de férias. Mas durante aqueles dez dias, eu também não pude dormir sossegado. Não podia imaginar, como uma pessoa jovem, bonita e talentosa como ele, poderia ter uma história daquele tamanho. Preferi acreditar, já que eu achava e acho, que tudo é possível, que aquilo tinha sido imaginação da cabeça dele, que ele tinha inventado aquela história para me impressionar, mas as vezes me batia a paranóia de que ele poderia ser um psicopata e eu não tinha me dado conta, e já que agora eu era o seu cúmplice, ele poderia querer apagar mais essa evidência, ou seja, me apagar. Se ele foi capaz de matar alguém com quem ele tinha um relacionamento e por quem ele estava apaixonado, poderia perfeitamente envenenar a minha bebida também. Evitei aparecer no bar por aqueles dias, e sempre que o via o tratava normalmente, como se nada tivesse acontecido, o chamando sempre de meu cantor, mas com a pulga atrás da orelha, contando os dias para ele sair de férias. O fato é que o Martin, não voltou depois das quatro semanas. Soube depois, pelo supervisor do departamento em que ele trabalhava, que ele tinha sido transferido para outro navio e nunca mais tive notícias dele. Ele nunca me escreveu uma linha, nem se despediu de mim quando foi embora. Tomara que ele tenha seguido o meu conselho de se mudar para os Estados Unidos para tentar a carreira artística. Torço sinceramente, para que tenha acontecido o melhor na vida daquele moço. Mas a sua história, que até então estava guardada comigo, nunca mais me saiu da cabeça.

JESUS

JESUS
BAIXOU OUTRA VEZ À TERRA
CRESCIDO
MADURO
E RELAXADO.
DE CABELOS CURTOS
E SEM BARBA
ELE FOI TRAZIDO À MINHA PRESENÇA
PELAS MÃOS DE UMA MULHER
CHAMADA MILAGROS.
SOMENTE UMA PESSOA COM ESTE NOME
PODERIA REALIZAR O MILAGRE
DE TRAZER JESUS DE VOLTA À TERRA
E DE FAZE-LO ENTRAR NA MINHA VIDA
E ME MOSTRAR
O MILAGROSO CAMINHO DO AMOR.
JESUS ME AMOU
COMO SÓ ELE SABE E PODE AMAR
INTEIRO.
E EU O AMEI E ABRÍ O MEU CORAÇÃO
POIS É INEVITÁVEL NÃO FAZE-LO
DIANTE DA SUA ILUMINADA PRESENÇA.
ELE ME MOSTROU O ADIANTE
ENCHEU O MEU CORAÇÃO DE ESPERANÇA
ME DEU UMA ALEGRIA INFANTIL
AO ME BEIJAR A BOCA
COM A FORÇA DELICADA
DOS SEUS LÁBIOS FINOS
E BEM DESENHADOS.
DEPOIS CONVERSAMOS
SENTADOS À BEIRA DA PRAIA
DIANTE DO AZUL MEDITERRÂNEO
ONDE ELE ME CONTOU
AS HISTÓRIAS DA SUA VIDA
E ESCUTOU AS MINHAS
COM A PACIÊNCIA DE UM SÁBIO
E A SABEDORIA DE UM POETA.
ALI
NA PRAIA
ELE ME DECLAMOU UM OU DOIS POEMAS
E ME APONTOU O LONGE.
ENTÃO SAÍMOS
DIAS DEPOIS
A CAMINHAR DEVAGARINHO
OLHANDO A VIDA SEM PRESSA
JOGANDO CONVERSA FORA
PELAS RUAS DE VENEZA
PORQUE NENHUMA OUTRA CIDADE
REÚNE TANTO MISTÉRIO E BELEZA
E NENHUM OUTRO LUGAR PODE GUARDAR
A BELEZA DO MISTÉRIO DESTE ENCONTRO
OU ESCUTAR AS CONVERSAS DOCES
QUE NÓS DOIS TIVEMOS
E SORRIR DAS RISADAS
QUE NOS DEMOS.
UM DIA
À TARDINHA
JESUS PARTIU PARA PARIS
A CIDADE LUZ
ONDE ELE TEM A SUA MORADA
E DE ONDE
DE VEZ EM QUANDO
ELE SAI PARA VIAJAR POR ESSE MUNDO
E POUSAR O SEU OLHAR TRANQUILO
NO CORAÇÃO DE ALGUÉM
QUE ESTEJA ASSIM COMO EU ESTAVA
ESQUECIDO DE SI MESMO
ATÉ ENCONTRAR JESUS.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

FUGINDO DA GUERRA

Trecho do romance "Jaime, o marinheiro".

A história do Alexander.


Essa me aconteceu na academia da tripulação, no Brilliance of the seas. Nós músicos, podemos utilizar a academia dos passageiros, mas as vezes ela está muito cheia, os aparelhos ocupados, e como o passageiro tem sempre a preferência, é mais conveniente utilizar a academia da tripulação, que é muito menor e mais simples, mas dá pro gasto. Era tarde da noite, eu estava sem sono e resolvi ir caminhar na esteira para matar o tempo e ver se o sono chegava. Lá pras duas da manhã, me aparece o faxineiro. Seu nome era Alexander, um sujeito com cara de maluco, branco, muito magro, os olhos grandes e negros, que eu sempre via pelos corredores, cabisbaixo, a fisionomia triste, sem falar com ninguém, fazendo o seu trabalho de limpeza. Às vezes nos entreolhávamos e nos cumprimentávamos com um leve aceno de cabeça, mas não dizíamos nada. Às duas da manhã não tinha ninguém na academia além de mim. Ele entrou, me cumprimentou com a cabeça e eu continuei caminhando na esteira. De vez em quando eu o observava através do espelho, e ele estava lá, em pé, olhando fixo para mim, com a vassoura na mão. Aí eu perguntei se eu estava atrapalhando, se eu tinha que sair para ele fazer o trabalho dele. Ele disse que não, que estava ali matando o tempo, que ele não tinha nada o que fazer e que tinha ido pra academia para se esconder dos supervisores.

Os supervisores de limpeza, são em sua grande maioria, ex-faxineiros, quase todos caribenhos, quase todos sem instrução, quase todos sem educação nenhuma, que para se vingar de como foram tratados quando eram faxineiros, perseguem, espezinham e maltratam os seus subalternos, dando ordem aos gritos, como se estivessem falando com animais. Como já expliquei antes, a Companhia tem contratado um grande número de tripulantes oriundos do leste europeu e muitos são faxineiros e brancos. Os supervisores são em grande parte, negros e se aproveitam para se vingar em dobro. O Alexander prosseguiu.

- Eu sempre vejo o senhor por aí sem fazer nada, o senhor é oficial?

Eu respondi que não, que era músico e perguntei o nome dele e de que país ele vinha. Ele respondeu, com um forte sotaque eslavo, o inglês vacilante, que vinha da Macedônia, mas era natural do kosovo, depois me perguntou por que eu estava sempre sozinho. Eu disse que é porque eu gostava de sossego, que era melhor estar só do que andar metido em fofoca e em confusão. Aí ele perguntou se ele estava atrapalhando o meu exercício, se eu queria que ele fosse embora. Eu percebendo no que aquilo ia dar, mandei o meu clássico, “que nada, pode falar que eu estou escutando”. Ele perguntou se eu tinha família. Eu disse que sim, que estava separado, mas que tinha irmãos, sobrinhos, uma família grande no Brasil.

- Brasil?! Deve ser um lugar bonito lá. Eu já vi muitas fotos do Brasil na televisão. Tem guerra no Brasil?

Eu respondi que não, que o país era muito grande e rico, mas que tinha muita gente pobre também, pois o pior problema do Brasil eram os políticos, que viviam roubando o dinheiro do povo. Ele disse que era assim em todo lugar, mas que se não tinha guerra, já era bom demais e começou a contar a sua história.

- Eu perdi toda a minha família na guerra, estou aqui fugido, porque perdi tudo, não tenho nada, nem casa. Minha mulher, minha filha, minha mãe e meus irmãos, todos morreram na guerra, assassinados pelos sérvios.

Nesse momento eu desliguei a esteira e sentei num banco que estava por perto e pedi que ele sentasse também. Ele continuou de pé.

- Minha mãe nasceu na Macedônia e o meu pai na Albânia, depois que eles casaram foram viver no Kosovo. Já ouviu falar no Kosovo?

Eu disse que sim, que era professor de história em meu país e que conhecia bem de história e de geografia também. Ele continuou.

- Os sérvios quiseram fazer uma limpeza de raça no Kosovo, que era de maioria albanesa e queria se tornar independente. Aí então eles nos invadiram. Somos um país pequeno, não tínhamos um exército forte e bem treinado, mas somos bons de briga e nos organizamos em milícias para resistir como podíamos, nas montanhas. Eles eram em maior número, e tinham melhores armas, mas mesmo assim não nos venceram, os americanos nos ajudaram e não perdemos a guerra, mas já era tarde, eu perdi tudo, casa, família, mulher, filha, tudo. Como minha mãe era da Macedônia eu fugi pra lá, porque o meu país estava destruído.

- Eu sei, eu acompanhei pelos jornais e pela televisão.

- Mas garanto que o senhor não conhece as atrocidades que os sérvios fizeram no nosso país, por que isso a televisão não mostra. Eles estupravam as nossas mulheres e depois matavam. As crianças e recém nascidos, eram colocados vivos em fornos micro ondas, e os adolescentes, tinham as suas barrigas cortadas, e eram deixados assim, sangrando, com as tripas de fora, até morrer. Saquearam tudo, incendiaram nossas casas, destruíram nossas plantações, acabaram com o que puderam. Não só o Kosovo como também a Bósnia e a Croácia, mas eles se foderam, os malditos não conseguiram ganhar de ninguém, ficaram só com um pedacinho de terra e com Montenegro, que logo logo vai se separar também. Eu matei vários, não sabia nem pegar numa arma quando eu fui pra milícia, hoje eu sou um bom atirador, matei tantos sérvios que até perdi a conta. Mas agora acabou, tenho que tentar seguir vivendo e reconstruir a minha vida, por isso eu vim trabalhar nos navios. Se eles soubessem que eu tenho tantas mortes nas costas não me contratariam.

-Mas agora acabou Alexander, você é jovem e pode encontrar outra mulher, até aqui mesmo no navio, quem sabe casar, ter outros filhos. O que é que você fazia antes da guerra?

- Eu trabalhava no campo, não tenho muita instrução não, sou camponês.

- E onde foi que você aprendeu inglês?

Perguntei, tentando desviar o assunto. Ele me disse que aprendeu com os americanos, escutando, vendo televisão, perguntando, lendo revistas. Que quando ele foi fazer a entrevista para trabalhar nos navios, comprou um dicionário e foi se virando e que por isso ele só pode trabalhar na faxina, por que o seu inglês ainda não é bom e ele não tem muito estudo. Eu o elogiei dizendo que pra quem não tinha tido um professor, que ele falava muito bem, que ele tinha um bom vocabulário e sabia se expressar, e acrescentei.

-Também, se a sua mãe era natural da Macedônia, você é de uma certa maneira, é um descendente de Alexandre, O grande. Por isso é um cara inteligente e guerreiro. Não é a toa que você tem esse nome. Daqui pra frente sua vida vai mudar Alexander, você vai ver.

Foi quando eu vi Alexander sorrir pela primeira vez. Seu rosto se iluminou com algo parecido com esperança. Sorrindo, com quase todos os dentes estragados, ele me agradeceu e pediu segredo, pediu que eu não contasse pra ninguém a sua história, senão eles podiam despedi-lo e ele não tinha para onde ir. Nos navios pelo menos, ele tinha casa, comida, e era pago pelo seu trabalho. Comparando com o seu passado recente. Podia-se dizer que Alexander, tinha ali, no Brilliance of the seas, uma vida digna.

Fiquei amigo dele. Sempre que eu podia, ia comer a gororoba que serviam no refeitório da tripulação, só para conversar com Alexander, a quem passei a chamar de “Alexander, the great”. Eu escutava as suas histórias fantasiosas e perturbadas pelo horror da guerra, e procurava incentivá-lo a recuperar a sua vida. E também contava as minhas e as do meu país, que apesar de ser um país pacífico, nas nossas favelas e no nordeste do Brasil, acontecem coisas que não são muito diferentes das que aconteceram no Kosovo, durante a sua guerra contra os sérvios.



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

AMO TE LISBOA.




AMO TE MAIS QUE TUDO

MAIS QUE TODAS

ÀS VEZES MAIS DO QUE A MIM MESMO

OUTRAS VEZES

MAIS DO QUE O MEU RIO DE JANEIRO

E SABENDO QUE É UM EXAGERO

AMAR TE DE TAL FORMA

AMO TE LISBOA.

POIS DE TI PARTIRAM UM DIA OS TEUS

PARA DESCOBRIR OS MEUS

E FAZER DE MIM O QUE SOU

AURI VERDE LUSITANO

CIDADÃO DO MUNDO

CARIOCA E BAIANO

BRASILEIRO

AMERÍNDIO E MULATO.

AMO OS TEUS CHEIROS

AS PEDRAS DOS TEUS CAMINHOS

AS TUAS VELAS AO VENTO

O PORTO DOS TEUS VINHOS.

AMO OS TEUS CASTELOS

OS TEUS SONHOS

E AS TUAS GUITARRAS

EMBALANDO A VOZ DE AMÁLIA

PRESENTE EM CADA ESQUINA

DO TEU CÉU.

AMO O AZUL DO TEU SOL

O NEGRO DO TEU FADO

OS TEUS POEMAS

VIVOS NOS VERSOS DE PESSOA

A REVELAR A BELEZA DO TEU ROSTO

SEM VÉU.

AMO TE MAIS QUE TUDO

POIS DE TI PARTÍ UM DIA

ABRINDO AS PORTAS DO TEJO

PARA CONQUISTAR O MUNDO.

AMO TE POR QUE SEI

QUE SEMPRE ESTARÁS

DE BRAÇOS E OLHOS ABERTOS

A ME ESPERAR E A ME GUIAR

COMO UMA MÃE

QUE NÃO VÊ O FILHO HÁ ANOS

COMO A AMANTE

QUE ENCONTRA NO SEU HOMEM

O CANTO.


A MULA

Trecho do romance "Jaime, o marinheiro"


A história do Nuno.


Lá no Serenade, teve uma época em que a comunidade que falava português era razoavelmente grande. Éramos quatorze, dois brasileiros, nove portugueses, um canadense filho de portugueses, um sul africano que morou em Lisboa por muitos anos e um angolano. O angolano se chamava Nuno, e era um mulato nem alto nem baixo, nem bonito nem feio, que estava começando a ficar careca e era muito calado. Estávamos no final de ano, perto do natal, quando alguém descobriu que se podia comprar bacalhau de boa qualidade em Porto Rico. Daí resolvemos comemorar o nosso natal a grande, como se diz lá em Portugal. Reunimos a pequena comunidade, pedimos autorização para usar o bar de staff e oficiais, que sempre estava vazio e desocupado, já que a maioria preferia mesmo era ir para o bar da tripulação, que era maior e mais animado, e organizamos o nosso natal, com direito a bacalhoada, música, troca de presentes e muito, muito vinho. Foi nessa noite que eu conheci o Nuno.

O Nuno tinha, segundo ele, vinte e seis anos, mas parecia ter muito mais de trinta. Eu sempre o via no refeitório, mas não sabia que ele falava português, nem que era angolano. Eu tinha levado, a pedidos, um teclado que conseguira emprestado com um dos músicos da orquestra e lá pras tantas, depois da troca de presentes e com muitos copos na cabeça, comecei a tocar. A turma toda em volta cantando, pedindo uma música e outra e eu lá, de super bom humor, atendendo aos pedidos e me divertindo também. Aos poucos o grupo foi diminuindo, pois alguns tinham que acordar cedo para trabalhar e no final ficamos eu, o Claudio, que trabalhava nos bares e o Nuno, que como eu fiquei sabendo naquela noite, trabalhava como garçon no dinning room. Ficamos os três, bebendo, eu tocando baixinho, e os dois escutando e conversando entre si. O Claudio pegou no sono e o Nuno se aproximou e foi logo dizendo:

- Pois é brazuca, faz tempo que o senhor trabalha aqui nos navios?

Eu respondi que aquele já era o meu sexto contrato e perguntei quantos contratos ele já tinha feito. Ele respondeu que era o primeiro e com certeza o último. Eu disse que já conhecia aquela estória e perguntei como ele veio parar ali. Ele já estava muito bêbado, mas firme. Então sorriu e me disse que estava ali fugido da polícia. E explicou na maior naturalidade, enquanto eu continuava tocando e escutando a sua história.

- Eu trabalhava em Luanda para um alemão filho da puta que era traficante de drogas, eu era uma espécie de gerente da boca, o senhor entende? Mas fui me meter com a mulher do sujeito, uma preta gostosa que de vez em quando eu comia. A preta era safada, dava pra todo mundo e o gringo desconfiava. Um dia lá, a preta apareceu morta, com dois tiros na cara e o gringo quis me incriminar. Antes que a policia me pegasse, eu fugi pra Lisboa e lá eu arrumei serviço num cargueiro que vinha pros Estados Unidos. Arrumei os papeis e fui pra Miami. Em Miami eu trabalhei num restaurante indiano, até que eu vi o anúncio que estavam recrutando garçon para trabalhar em navio de cruzeiro e aqui estou. O senhor tem cara que gosta de uma farinha. Eu soube que em San Juan...

Antes que ele continuasse eu o interrompi dizendo que ele tivesse cuidado de comentar essas coisas dentro de um navio, porque ali dentro ninguém podia confiar em ninguém. Ele falou que “o gajo estava a dormir”, se referindo ao Claudio. E continuou dizendo que em San Juan ele tinha conhecido uns caras que tinham uma farinha da boa. Eu dei risada e disse que se era farinha não podia ser da boa, pois farinha no Brasil era droga malhada, misturada, de má qualidade. Ele riu e perguntou se eu não queria ir com ele na próxima vez que o navio parasse em Porto Rico, para comprar da boa. Eu disse que não cheirava mais e que ele não levasse aquilo pra dentro do navio, pois se pegassem, ele estava frito. Nesse ponto o Claudio acordou e eu achei melhor dar por encerrada aquela brincadeira natalina. Arrumamos e limpamos o salão e eles me ajudaram a levar o teclado de volta até o teatro.

Mas o Nuno não largava do meu pé. Virava e mexia, lá estava ele, aonde quer que eu estivesse tocando, dizendo:

- Ô pá, passei por aqui só pra escutar a sua música, o senhor toca muito bem, se eu soubesse tocar assim, não estaria carregando bandeja.

Um dia, eu estava num intervalo, indo em direção ao banheiro, quando encontro com o Nuno, uniformizado, cheirando a álcool e todo sorridente, logo ele que era um sujeito calado, todo fechado. Quando ele me viu, veio na minha direção e estendeu a mão para me cumprimentar. Eu estendi a minha também e senti que ele estava tentando me passar algo, que havia algo como uma pedaço de papel entre a sua mão e a minha. Eu retirei a minha mão e um papelote de cocaína caiu no chão, aos meus pés. Ele se abaixou, recolheu o troço do chão e me disse baixinho:

- Pô brazuca, vai me fazer essa desfeita, estou indo embora daqui a duas semanas, vou levar um carregamento pra Europa, e trouxe uma mostra pro senhor matar a saudade. Se o senhor gostar podemos fazer sociedade. Eu sei que no senhor eu posso confiar.

Eu sorri fingindo estar achando engraçado aquilo tudo e disse baixinho também, sorrindo e olhando nos olhos dele, que ele sumisse com aquilo dali naquele minuto, que ele podia sim confiar em mim, mas que eu ia fazer de conta que não tinha acontecido nada e que ele fosse escovar os dentes e colocar um desodorante, por que ele estava cheirando a álcool, muito forte e que se um passageiro reclamasse, ele estaria em maus lençóis. Ele disse que os passageiros que se fodessem, pois ele já estava indo embora mesmo, e que se eu mudasse de idéia, que o encontrasse no bar mais tarde.

Fiquei as duas semanas seguintes sem aparecer no bar. Na véspera dele ir embora, eu o encontrei casualmente e ele me falou todo misterioso.

- Como é que é ô brazuca, o senhor sumiu. Amanhã é o grande dia. Já tenho tudo arranjado, pego a carga no aeroporto e me mando pra Europa. Se quiser vir comigo, ainda está em tempo.

Eu lhe desejei boa sorte e brinquei com ele, dizendo que agora que ele iria ficar rico e livre daquela escravidão, não esquecesse dos pobres e que desse notícias, se pudesse. Nuno foi embora e nunca mais se soube dele. Eu fiquei lembrando do Dr. João Carlos, o médico brasileiro, que disse que iam tentar me fazer de mula, que iam me pedir para levar droga de um porto pra outro. De uma certa forma, quatro anos depois, o Doutor João ainda continuava acertando.





A REVOLUÇÃO

A PICA BRANCA E ROSA

PORTUGUESA

ASSIM COMO O CRAVO VERMELHO

FEZ A REVOLUÇÃO.

FINCOU NO ÚTERO NEGRO

AFRICANO

O SEU CRAVO

E CRIOU A MULATA!



 


LAVANDERIA

Trecho do romance "Jaime, o marinheiro".


A história da Adriana.


A lavanderia é um ponto de encontro. Existem geralmente, duas lavanderias para os tripulantes, com quatro máquinas de lavar e secar cada uma. Se você vai lavar roupa, é melhor levar um livro pra ler, ou uma música para escutar e ficar de plantão por lá até a sua roupa secar, pois se você vacilar, alguém pode tirar a sua roupa da secadora, ainda molhada, para colocar as dela, deixando as suas no chão, ou então, simplesmente podem roubar algumas peças, normalmente as íntimas. Eu nunca entendi a razão pela qual alguém pode roubar calcinhas, cuecas e meias que não lhe pertencem, mas em um navio as coisas não precisam de um motivo lógico para acontecer, de maneira que a lavanderia é um lugar que está sempre movimentado. As pessoas ficam por ali, ou esperando a roupa lavar e secar, ou esperando por uma máquina disponível. Eu gostava de lavar roupa de madrugada, quando o movimento era menor.

Naquela noite eu tinha acabado de colocar a minha roupa na secadora, quando Adriana chegou.

- Oi, você não é o pianista que toca no lobby? Que bonita a maneira que você toca. É música brasileira aquilo não é? Me encanta a música brasileira. É uma vida boa esta vida de músico não é? Eu estou cansada de carregar pratos e de aturar esses gringos malditos, eu queria ser artista, cantora, dançarina, sei lá, tocar um instrumento, ter uma vida fácil como a de vocês.

- E o talento? Você tem algum talento para cantar, dançar ou tocar algum instrumento?

Perguntei, interrompendo o discurso daquela gorda que não parava de falar. Ela respondeu que talento pra cantora não, porque não tinha uma voz bonita nem era afinada, mas que para atriz talvez, que quando ela era pequena, ela queria ser atriz de novela de televisão, que achava lindo as atrizes de telenovela, sempre lindas, sempre maquiadas, com roupas elegantes. Nesse ponto ela fez uma pausa e me pediu desculpas por interromper a minha leitura. Eu disse que não tinha importância, que tudo bem, que ela podia continuar falando que eu estava escutando, mas antes que ela continuasse e aproveitando que ela estava colocando sabão na máquina de lavar, eu perguntei como era o seu nome, o que ela fazia a bordo e porque que ela tinha vindo trabalhar nos navios.

Adriana era chilena, de Punta Arenas, no sul do país. Ela era uma morena clara, baixinha e gorda, da cara redonda, os cabelos lisos, pintados de louro, com traços visivelmente andinos, de olhos pequenos e apertados, como os índios. Eu me apresentei, disse meu nome, que era do Rio de janeiro, e ela, sem olhar diretamente nos meus olhos, depois de colocar a sua roupa para lavar, se recostou na parede e olhando para o chão, deu um suspiro longo e começou:

- Eu tinha quase vinte anos, quando um dia, na cozinha da casa da minha mãe, ajudando a mamãe a lavar os pratos do almoço, eu olhei para os meus sapatos, que estavam furados de tão velhos, e pensei que eu não podia continuar daquela maneira. Aqueles eram os meus únicos sapatos e eu já tinha praticamente vinte anos, não podia seguir pedindo que a minha mãe me comprasse sapatos e roupas novas. Somos uma família pobre entende? Então eu resolvi ir embora do Chile. Escrevi para uma tia minha que morava na Alemanha. A minha tia tinha um pequeno restaurante em Hamburgo e precisava de alguém que a ajudasse no serviço. Ela me mandou a passagem e eu fui. Trabalhei com ela quase cinco anos, morando na casa dela, com seu marido e os meus dois primos. Paguei a passagem aos poucos, com o meu trabalho, que era basicamente, limpar, lavar e cozinhar para eles e para os clientes do restaurante. Trabalhei duro, aprendi a falar alemão, fiz boas amizades. Um dia um casal belga, que eram clientes do restaurante, me convidou para eu ir com eles para Bélgica, cuidar do bebê deles. Como eu já estava cansada daquele trabalho no restaurante, eu fui. Fiquei com os belgas mais ou menos uns dois anos, aprendi um pouco de Francês, e aí então, eu conheci o Arquimedes, um grego bonito, que estava de passeio em Bruxelas. Nos conhecemos num parque e foi amor à primeira vista. Naquele tempo eu não era gorda assim não Seu Jaime, eu era magrinha, bonita. Ele gostou de mim e me levou pra viver com ele na Grécia. Vivemos juntos nove anos. A família dele tinha muito dinheiro, trabalhavam com jóias, mas ele tinha problema com drogas, era viciado em cocaína. No principio eu nem desconfiava, mas depois eu descobri, e isso é a pior desgraça que pode acontecer a uma pessoa. Esse vício acaba com qualquer um. Eu não gostava daquilo e ele começou a ficar violento, passou a me bater, minha vida virou um inferno.

- E você falava grego?

Perguntei para que ela pudesse respirar e eu também, pois a história já estava ficando grande demais. Ela continuou.

- Pois é, tive que aprender, é claro, falo fluentemente, melhor que alemão e francês.

- Quer dizer então que você pode falar com o comandante Antalis em grego?

- Sim, é claro que posso, sempre que passo por ele lhe digo “kalimera capitanea”, que quer dizer, bom dia comandante, mas ele só responde com um sorriso, não dá muita conversa não, quem vai dar conversa pra uma garçonete?

O Comandante Antalis era o Comandante do Serenade e era um cara super popular, que todos adoravam. Quase todas as noites ele vinha escutar a minha música e de vez em quando conversávamos. Ele esteve algumas vezes no Brasil, quando trabalhava em navios de carga e como bom grego, era um mulherengo de primeira e adorava as mulheres brasileiras. Mas voltando a Adriana, que eu já havia percebido que tinha a auto estima baixíssima.

Ela perguntou se não me estava atrapalhando e eu disse que não, que estava interessado na sua história e ela prosseguiu dizendo que quando ela se cansou de apanhar do grego, juntou o pouco dinheiro que tinha guardado, comprou uma passagem para o Chile e fugiu dos mal tratos do companheiro. Depois de quase dezessete anos, ela voltou para a casa dos pais, com uma mão na frente e outra atrás, exatamente como havia saído, deixando na Grécia, o seu marido viciado e truculento, jóias, casa, roupas de grife e toda a vida confortável que ela teve, enquanto morou com ele.

- Quando ele não estava cheirado era uma ótima pessoa, carinhoso, fazia tudo que eu queria, me dava de tudo, jóias, viagens. Mas quando estava sob o efeito da droga, se transformava, deixei tudo para trás e fugi pro Chile. Um dia eu vi um anúncio num jornal, que estavam recrutando gente para trabalhar em navios de cruzeiro. Eu fiz a entrevista para garçonete e aqui estou, trabalhando como uma escrava, engordando como uma porca, porque jurei para mim mesmo, que nunca mais eu iria precisar de homem nenhum, nem de ninguém para me sustentar. Hoje eu ajudo a minha família, já compramos uma casa confortável, já conheci mais de vinte países, e só vou ao Chile de férias, mas estou cansada, sabe Seu Jaime, já tenho quarenta e dois anos, estou cansada.

Eu disse que ela podia me chamar de Jaime apenas, que deixasse o senhor pra lá, pois nós tínhamos quase a mesma idade. Ela se espantou, dizendo que eu parecia ter dez anos a menos. Eu agradeci e disse que a culpa era da música e sugeri que ela tentasse passar para outro departamento, pois ela falava vários idiomas e poderia ser uma embaixadora internacional, ou mesmo, trabalhar como tradutora no seu país. Depois agradeci pela confiança dela ter me contado a sua história, recolhi a minha roupa que já estava seca e fui embora pensando naquilo tudo que eu havia acabado de escutar. Durante o tempo em que trabalhamos no mesmo navio, sempre que a encontrava eu perguntava:

- E aí Adriana, já está providenciando a mudança de departamento?

Ela sorria e dizia, que qualquer dia ia ver isso. E eu nunca soube que fim levou a Adriana. Se ela virou uma embaixadora internacional ou se seguiu sendo garçonete no dinnig room. Embaixador internacional é um cargo importante, com direito a cabine individual e tudo. Para ocupar este cargo, a pessoa tem que falar pelo menos, três idiomas além do inglês, que são o espanhol, o Frances e o alemão. E a Adriana de quebra, ainda falava grego.

ISSO SEMPRE DÁ SAMBA

Tenho fome e sede de tudo

Coração aberto pro mundo

Rio Paris Dakar Nova Iorque

Um pé no deserto do rock

E outro perto do samba

Se está claro ou se está escuro

Na esquina tem o que procuro

Um olhar que não se perdeu

Seu amor nem sempre é seu

E isso sempre dá samba.

Todos os dias saio por aí

Com a certeza de encontrar

Pois sempre tem alguém assim

Também querendo se achar

Eu tenho fome eu tenho sede

E quem cair na minha rede

Vai se encantar

Eu tenho fome eu tenho sede

E quem cair na minha rede

Vai sambar

Vai sambar.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

COMO ME TORNEI SALGUEIRENSE


Nasci na Bahia, em Salvador, no dia 06 de março de mil novecentos e antigamente, portanto, um dia após a Academia de samba do Salgueiro, completar alguns anos de fundação, já que ela foi fundada em um cinco de março. O bairro do Garcia, onde eu me criei, era um reduto de sambistas e ali havia uma escola de samba, que era um arremedo mal feito da Portela. Suas cores eram azul e branco, o seu abre alas também era uma águia e quase sempre ganhava o carnaval da Bahia. Quando a “Juventude do Garcia” descia o morro, levantava literalmente a poeira das ruas da cidade, pois não havia um desfile organizado em Salvador, as escolas saíam de seus bairros e iam se desmanchando por dez, quinze quilômetros, até chegarem esfarrapadas ao centro da cidade, onde havia um palanque armado e o que sobrava de cada escola, desfilava naquele palanque, ala por ala, para uma comissão julgadora, geralmente embriagada e sonolenta. Como o meu bairro ficava mais perto do centro, a Juventude chegava mais inteira e talvez por isso, ganhava o carnaval. O que isso tem a ver com o Salgueiro? Aparentemente nada, até eu aprender a ler com cinco anos de idade e ver na revista “O Cruzeiro”, uma matéria sobre a campeã do carnaval carioca. Na capa da revista estava estampada a foto da Chica da Silva, representada pela Isabel Valença, num traje super rico, que mais parecia ter saído de uma tela de cinema. Aí começou a comparação. Entre os farrapos das escolas de samba de Salvador e a grandeza das escolas do Rio, eu não tive dúvidas, pois como disse o Joãozinho Trinta, quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta mesmo é de luxo e eu era uma criança pobre, mas metida a besta, naquele distante nordeste brasileiro.

Salgueiro! Isso passou a ser para mim um sinônimo de luxo, de beleza, de vida, de felicidade. A foto da Isabel Valença não me saía da cabeça e desde então eu passei a acompanhar os desfiles das escolas de samba do Rio, através dos vídeos taipes que chegavam com dois dias de atraso em Salvador e eram exibidos pela TV Itapoan, uma emissora dos Diários Associados. Naquela época, a música, assim como o Salgueiro de Chica da Silva, já havia me mordido e eu sempre reparava que os sambas salgueirenses eram mais melodiosos que os das outras escolas. Bem, o ano era 1969, o homem estava para ir à Lua, os satélites ainda estavam sendo testados e pela primeira vez, a televisão iria tentar transmitir ao vivo, o tão famoso desfile das escolas de samba do Rio de janeiro. Salvador estava em grande expectativa, não só pelo advento da tentativa de transmissão ao vivo, como também porque a Acadêmicos do Salgueiro, iria homenagear a Bahia, com o enredo “Bahia de todos os deuses”. A transmissão foi um fiasco, imagem chuviscada, interrompida várias vezes por falta de condições técnicas, afinal estávamos em testes, mas eu nunca mais esqueci a Elza “suíngue” Soares, cantando aquele samba maravilhoso, “Bahia/ os meus olhos estão brilhando/ meu coração palpitando/ de tanta felicidade/ és a rainha da beleza universal/ minha querida Bahia”.

Salgueiro campeã do carnaval! E os meus olhos ficaram brilhando em vermelho e branco para sempre, assim como o meu coração bate mais forte, toda vez que o Salgueiro entra na avenida.

A criança de doze anos cresceu se prometendo morar no Rio e desfilar pelo Salgueiro. Me mudei para o Rio em 82, jornalista formado, com o sonho de fazer música e cantar meus sambas nas noites cariocas, além de desfilar um dia pela minha escola do coração, é claro. O início foi difícil, falta de grana. Em 84 eu vi o Salgueiro ao vivo e a cores pela primeira vez, “oiá, oiá água de cheiro pra ioiô”, cara grudada no alambrado do recém construído sambódromo, ingresso barato, patrocinado pelo tio de uma namorada, que trabalhava no governo do Rio, skindô, skindô! Quando a vida começou a sorrir profissionalmente para mim e eu já podia me sustentar com a minha música, o Salgueiro já ia pra dezoito anos sem título. Eu vivia dizendo pros meus amigos que o Salgueiro, só ganharia o carnaval, quando eu desfilasse pela escola. Pretensão? Não, premonição de baiano. Em 1993, um amigo meu me conseguiu uma fantasia de última hora, quatro dias antes do carnaval. Tinha chegado a hora, eu peguei a fantasia e desfilei numa ala que homenageava o futebol, no final da escola, realizando o sonho da minha vida. O Salgueiro pegou o ita no norte e ganhou o tão esperado título. Explode coração, na maior felicidade! De lá pra cá, desfilei constantemente até o ano de 2000, quando coincidentemente a escola desfilou no dia seis de março. Presente de aniversário! Naquele ano aceitei o convite para trabalhar como músico, numa Companhia de navios de cruzeiro e saí navegando pelo mundo, cantando o samba brasileiro e levando para sempre, o Salgueiro no meu coração.


O AMOR DE DEUS

ONDE ESTAVA O AMOR DE DEUS

QUANDO DEVORARAM OS CRISTÃOS NO COLISEU

QUANDO ASSASSINARAM MILHÕES DE JUDEUS

E EVAPORARAM HIROSHIMA E NAGASAKI?

ONDE ESTAVA O AMOR DE DEUS

QUANDO DEVASTARAM O VIETNAN

QUANDO SADAM BOMBARDEOU O IRAN

E OS AMERICANOS INVADIRAM O IRAQUE?



PROCUREI PELO AMOR DE DEUS E ELE NÃO ESTAVA

NOS NAVIOS NEGREIROS QUE CRUZARAM O ATLÂNTICO

NAS FAVELAS ESPALHADAS PELO MUNDO

NOS FAMINTOS DOS SINAIS DE TRÂNSITO

NO ABANDONO DAS BOCAS DE FUMO



ONDE ESTAVA MEU DEUS O TEU AMOR

QUANDO MATARAM O TEU FILHO

E EM NOME DAQUELE SANGUE DERRAMADO

A HUMANIDADE SEGUIU ERRANTE

A PROCURA DO PARAÍSO PROMETIDO

ENQUANTO PASTORES DE TELEVISÃO ENLOUQUECIDOS

ENRIQUECEM ÁS CUSTAS DO TEU POVO

PERDIDO NA FÉ DO TEU AMOR



PROCUREI PELO AMOR DE DEUS E ELE NÃO ESTAVA

NOS AVIÕES QUE DERRUBARAM AS TORRES GÊMEAS

NAS DITADURAS QUE TORTURARAM SEM PENA

AQUELES QUE SONHARAM SER POSSÍVEL

E DERAM DE CARA COM O NADA.

sábado, 17 de outubro de 2009

CASA AUTO DOIS IRMÃOS


Numa das minhas recentes visitas a Salvador, passei ocasionalmente pela Rua Carlos Gomes e não pude deixar de me espantar, com aquela portinha onde funcionava a casa auto dois irmãos. Na minha lembrança de infância, aquela porta era enorme, onde funcionava uma grande empresa, que tinha nos fundos um escritório, entulhado de papéis, cadernos, livros caixa, canetas e um cofre grande, de ferro, onde eu imaginava estar guardada ali, uma grande fortuna.

A grande empresa era do meu pai, Seu Ribeiro, um comerciante de talento e um administrador notável, pois daquela portinha ele conseguiu produzir felicidade para muitas pessoas. Meu pai trabalhou de sol a sol, seis dias por semana, fazendo horas extra em casa, e ainda tinha tempo e imaginação para nos contar estórias da carochinha antes dormir. Era a sua hora do recreio por certo, pois muitas vezes ele adormecia antes de chegar ao final da estória, o que me deixava enfurecido. E assim foi, durante anos e anos. É claro que o valor do dinheiro mudou, que os tempos são outros, mas mesmo assim, ainda hoje, é impressionante como aquela portinha pôde abrir tantas outras portas.

Meu pai nos fez feliz quando nos contava estórias antes de ir prá cama. Fez feliz a sua mulher, nossa mãe, dando-lhe seis filhos saudáveis, e a deixando amparada com casa própria, carro e uma pensão descente para os padrões brasileiros. Nos fez feliz ao nos abrir as portas do melhor e mais caro colégio da cidade, onde quase todos nós estudamos até a universidade, e alguns de nós ainda terminamos os estudos em faculdades particulares, igualmente caras, pagas com o suor do trabalho daquele homem, que trabalhou, pelo que eu me lembro, sem férias, durante toda a sua vida. Sua felicidade portanto era o trabalho, pois através dele, ele pode também produzir felicidade para parentes e agregados, que sempre estavam a freqüentar e muitas vezes a morar na nossa casa, desfrutando da nossa comida, das nossas festas, da nossa hospitalidade.

Infelizmente ele não soube se impor como homem, chefe de família e provedor e por isso não teve o reconhecimento e o respeito que merecia. Morreu cedo, quando viu todo o seu esforço ir por água abaixo e ele resolveu desistir e se entregar. Eu, da minha parte, reconhecendo a minha ingratidão a um homem que nunca me disse não, e que a sua maneira, me amou, só posso aplaudir agradecido a sua memória, pela sua paciência, humildade, tenacidade e altruísmo, por ter produzido felicidade pra tanta gente, enquanto ele desfrutou de tão pouco, de tudo aquilo que ele construíu sozinho.

QUEM SAMBA SE ESQUECE DA DOR

Somos os zés

Da Silva dos rés

Da tribo de muitos pajés

Aldeias d'angola e de Olinda

Já vimos dançar uns mil Manuéis

Já vimos rolar cabeças e anéis

Coqueiros e igarapés

E estamos de pé ainda

No morro da silva dos zés.

Quando o batuque rolou nas marés

E deixou o meu canto de fé

Fazer a magia

Me espalhei pelas terras do Rio

Das Minas Gerais do Brasil

Dos mares azuis da Bahia

Quando rolou um barraco eu chorei

Mas a volta por cima eu dei

Pois quem samba só tem alegria

Sou o esplendor do morro

Da vida eu sou

Quem samba se esquece da dor.

EU LHE ATIRO FLORES


Tive que deixar a cidade que eu amo e que escolhi para viver pelo resto da minha vida, para ganhar o mundo e tentar fazer algum dinheiro. No estrangeiro, exilado do meu amor, fecho os olhos e vejo com saudade suas manhãs de maio e junho, o céu lavado de azul, como se Deus tivesse mandado fazer uma faxina naqueles dias, fazendo com que o sol iluminasse a minha cidade com um filtro especial. Choro por dentro só de pensar na sua Lagoa, coração de um lugar cheio de vida, onde o seu povo nega a rendição e resiste com molejo à violência que nela se instalou, devido ao seu crescimento desordenado e desumano. Penso na sua floresta imensa, pulmão de um povo que respira às vezes com medo, às vezes com sossego, mas que respira sobretudo aliviado, ao se mirar no Corcovado e receber as bênçãos do seu Cristo redentor, que está lá, de braços abertos, como que a dizer, “eu te amo”. Eu te amo Rio de Janeiro! Carioca não sou de nascimento, mas como disse o poeta paraense Billy Blanco, “carioca é aquele que vem e fica por amor à cidade”. Eu vim pra você um dia, menino grande mijando nas calças ainda e me enamorei de ti para sempre. Como um adolescente que beija na boca pela primeira vez, nunca mais te esqueci. Tua és para mim a definição mais perfeita desse país gigante. Toda a gente do Brasil se encontra no Rio. Toda a gente do mundo samba o teu samba. Rio de janeiro da Mangueira, entrando na avenida pra ser campeã sempre! da Portela, do meu Salgueiro, da Mocidade Independente de Padre Miguel, que vai a qualquer lugar. Rio de Chico Buarque de Hollanda, de Tom e Vinícius, de Noel, Cartola e Braguinha, de Pixinguinha, Zeca Pagodinho, Tim, Benjor, Dona Ivone Lara e Beth carvalho, Rio de janeiro de Elza “suingue” Soares e Paulinho da viola! Rio de Nelson cavaquinho, Assis Valente, Geraldo Pereira e de muitos outros cariocas, vindos de todas as partes do Brasil e que se renderam ao seus encantos, de Caymmi a Caetano, só para lembrar alguns baianos, sem esquecer de ‘Seu Ari “brasileiro” Barroso, o maior carioca de todos os mineiros. Rio de todos os poetas! De todas as letras! Drummond, Cecília, Clarisse e tantos outros que te bendigam. Eu que já visitei mais de cem cidades por esse mundo de meu Deus, posso dizer sem medo de errar, não tem nenhum lugar neste planeta mais bonito do que o meu Rio de janeiro, meu ponto de referência no mundo, para onde eu sempre voltarei. Que São Jorge te guarde com a tua lança, pois São Sebastião continua a receber todas as flechas que atiram em ti e ainda assim, segue te protegendo firme e forte. Eu lhe atiro flores!

FILHOS AO VENTO

DEFEITO DO TEU DEFEITO

GENÉTICAMENTE IMPERFEITO

POR TI CONCEBIDO E DESFEITO

BÊBADO DO LEITE DO TEU PEITO.



ALMA DA TUA ALMA

LEITO DO TEU RIO SEM CALMA

ONDE O PRANTO DESÁGUA

EM DOR E MÁGOA

E O SUOR ENXÁGUA

AS MARCAS DA DESARMONIA

LUTAS QUE FUI VENCENDO

DIA APÓS DIA.



AGORA EU TE CONFISCO AS ARMAS

JOGO FORA AS BALAS

E TE ENTREGO AO TEMPO

PARA QUE NÃO DISPARES MAIS

FILHOS AO VENTO.

O SUTIÃ DO MARCELO

Marcelinho era o filhinho da mamãe, da vovó e das titias. O primeiro filho daquele casal classe média de Ipanema tinha sido homem, portanto o segundo já viu né? tinha que ser uma menininha, pra fazer par com o Marquinho, o mais velho. Deu Marcelinho gente! em pleno anos oitenta, eles não quiseram fazer o teste pra saber o sexo do bebê, de tão seguros que estavam, que Marcela iria chegar linda e loira. Foi uma decepção é claro, mas mesmo assim Marcelinho foi recebido com carinho e criado desde o berço, com muito amor, eu disse, muito amor mesmo, e como já se sabe, tudo que é demais, sobra. Assim foi crescendo Marcelinho, acostumado em ser o centro das atenções e a ter tudo do bom e do melhor desde pequeno. Tudo que ele via ele queria.
-Mamãe me dê isso, papai me dê aquilo, vovó eu quero aquele dali ó.
E mamãe, papai e vovó, faziam as vontades do Marcelinho sem pestanejar. Marcelo mamou no peito até quase quatro anos de idade, depois dos dois anos o pai começou a ficar incomodado e falava pra mulher:

- Pára de dar o peito pro menino que ele já está crescido mulher.
 A mulher dava de ombros, dizia que o menino gostava e fazia bem para a saúde das mulheres e dos seus filhos, amamentar até tarde, quanto mais leite materno melhor, os meninos ficam mais fortes. O marido argumentava que o mais velho não mamara tanto e no entanto era forte pra caramba. A mulher dizia que queria o caçula ainda mais forte, o dobro.

Até que a mulher engravidou de novo e desta vez veio a Patricinha. Marcelinho já estava com três anos quando a patricinha chegou. Foi um ciúme mortal o que aquele menino sentiu, ao ter que dividir o seu peito com aquela intrusa. Marcelo chorava, gritava, ameaçava bater no bebê e dizia aos berros, para que todo o quarteirão escutasse:
 - NÃÃÃÃÃOOOO! ESSE PEITO É MEU. Pronto, estava instalado o drama. Marcelo que nunca dividira nada com ninguém, nem com o irmão mais velho, agora via a sua mãe dar o seu leite, o leite que lhe pertencia, para aquela menina. A mãe, sem saber mais o que fazer para acalmar o menino, teve a idéia de lhe dar o sutiã que ela usava para enxugar o peito depois da amamentação. A maioria das pessoas usam um lenço ou uma toalha de rosto para enxugar o leite do peito, mas a mãe de Marcelinho usava era um sutiã, sempre o mesmo sutiã, velho e já amarelecido.

–Toma, cheira o sutiã da mamãe que faz o mesmo efeito. Não é que fez mesmo? Marcelinho ficou hipnotizado pelo cheiro de leite impregnado naquele sutiã e desde então não o largou mais, pra todo canto que o Marcelo ia, tinha que levar aquele sutiã com ele, pra escola, pro parque, pro clube, pras festinha de aniversário, lá ia Marcelo e o seu inseparável sutiã. Ele e o sutiã eram uma coisa só, nem do peito da mãe ele queria mais saber. A mãe resolveu um problema e criou outro ainda maior. Marcelinho já com seus dez anos de idade, ia jogar bola com os amiguinhos e levava a sua própria bola, senão ele não jogava, e o seu inseparável sutiã, ainda mais velho e encardido. Marquinho morria de vergonha do irmão e um dia, numa briga que os dois tiveram, coisa de criança, Marco pegou o sutiã do Marcelo e atirou pela janela, três andares abaixo.

- NÃÃÃÃOOOO! MEU SUTIÃ! Berrou Marcelinho a plenos pulmões. O prédio inteiro tremeu, quando a mãe chegou no quarto, apavorada, deu de cara com o Marcelinho pendurado no pescoço do irmão, dizendo que iria matar o pobre do Marquinho. A muito custo ela conseguiu separar os dois, depois, chegou até a janela e viu que o sutiã havia voado e caído no teto do bar da esquina, duas casas adiante. Então a mãe tentou acalmar o filho dizendo que ia trazer o sutiã dele de volta. Em seguida chamou o marido e pediu que ele a companhasse até o bar da esquina, pois o Marco tinha jogado o sutiã do Marcelo no telhado do botequim. O marido achou aquilo uma maluquice, mas teve que ir, pois não agüentava mais o choro histérico do filho, incomodando a vizinhança. Quando chegaram ao bar, o pai procurou o gerente e disse a queima roupa:
 - Moço, o sutiã do meu filho caiu no telhado do seu bar e eu tenho que subir lá pra pegá-lo senão a criança não pára de chorar, sabe como é que é, é um sutiã de estimação.
 O gerente do bar primeiro pensou que fosse gozação de bêbado, mas diante da insistência e da ausência de cheiro de álcool no vizinho, ele deixou que o pai subisse no telhado do bar. O sutiã enfim foi resgatado, não sem danos, pois como estava emaranhado em um monte de fios e na antena externa da televisão do estabelecimento, o pai ao puxar o sutiã, escorregou e este rasgou ao meio. Marcelinho quando viu o seu sutiã partido em dois, berrou o seu célebre “NÃÃÃÃOOOO” e ficou sem falar com o irmão pro resto da sua vida.

Marcelo foi crescendo deprimido, desde que teve o seu sutiã partido em dois. Mal comia, às vezes não queria tomar banho e sequer conversava com a vovó e as titias, que seguiam lhe paparicando. Quando Marcelo fazia aniversário, ele não queria festa, não queria presentes, nada, só queria o seu velho sutiã inteiro de novo, coisa que a mãe tentara mas não conseguira, pois de tão velho e encardido, o tecido havia poído, não costurava mais, pois o sutiã estava dividido em dois para sempre. Quando passou a adolescência e Marcelo começou a se transformar num homenzinho, influenciado por Fabinho, seu amigo inseparável, Marcelinho passou a freqüentar academias de ginástica e a praticar a musculação. Os músculos apareceram rapidamente, Marcelinho se transformou num rapaz malhado, musculoso, com um peitoral de fazer inveja a qualquer nadador profissional, peitoral este, que ele exibia com orgulho em todos os lugares, fosse na praia ou no cinema, onde ele estava sempre usando aquelas camisetas apertadíssimas, que lhe valorizavam o peitoral trabalhado com esmêro.
 O sutiã, bem, os pedaços do seu velho sutiã, continuam guardados até hoje, junto com uma coleção de muitos outros que ele e o Fabio foram comprando ao longo do tempo. Hoje eles moram juntos e tem o seu próprio negócio, uma loja de roupa intíma feminina, num dos melhores shoppings da zona sul deo Rio de janeiro. O nome da loja? “O SUTIÃ DO MARCELO”, é claro.

FEITO PARA MATAR O AMOR

FUI FEITO PARA MATAR O AMOR

PARA NÃO ACOMPANHAR NINGUÉM

E VIVER SEM MEDO.

PROGRAMADO PARA VIVER SEM DOR

PARA NÃO SENTIR PENA OU REMORSO

QUANDO EU PISO

O CHÃO ESQUENTA

RACHA, SE CONTORCE

E GRITA EM DESESPÊRO.



FUI FEITO PARA NÃO DEIXAR RASTRO

PARA NÃO DERRAMAR LÁGRIMA

E DESORDENAR O MUNDO.

INVENTADO AO ACASO

SEM AFETO

ABRAÇO OU BEIJO

POR ONDE EU PASSO

A TERRA CHORA

UM CHORO PROFUNDO.



ESTRANHA A FORMA COMO FUI FEITO

VIM PARA BATER PRIMEIRO

E DEPOIS PERGUNTAR

VIM PARA TIRAR A RAZÃO

E NÃO SABER PERDOAR

VIM PARA PARTIR AO MEIO

RETIRAR A DIREÇÃO

ARRANCAR O CORAÇÃO

E TE DEIXAR MAIS FEIO.

LAURA, O MEU AMOR CADELA

Vivia eu num quarto alugado, em casa de um amigo, que sequer me cobrava aluguel, quando meu dinheiro faltava, pois eu era um artista vagabundo e sem futuro, onde o bom vento não costumava soprar com frequência. Ele era rico e precisava de companhia, ele gostava de ter dentro de casa, aquele contra ponto para a sua vida, apesar do desconforto dos meus humores, pois nunca fui muito chegado a humanos, e se estava em maus dias, não havia quem me arrancasse uma só palavra.

Assim eu vivia, até que um dia, o meu amigo, ganhou de presente uma cadela da raça dashund, daquelas que parecem uma lingüiça e fazia comerciais na televisão. Ele sabia que eu não era muito chegado a animais e aceitou o presente de bom grado, mais pelo prazer de se ver livre daquele inquilino/hóspede, mal humorado, que não ajudava nas contas, nem prosperava na vida, do que pela alegria de ter um animal de estimação em casa. Ele sabia que eu não iria suportar aquele intruso dentro da casa que não era minha, dividindo o espaço que não era meu, mas que por uso capião, me considerava dono.

Por uma dessas circunstâncias que até hoje não sei explicar, assim que botei os olhos em Laura, caí de amores por ela. Foi um amor inteiro, que nunca havia sentido e se há outras vidas, estava ali, naquele instante, estabelecido o reencontro de almas que se amaram em outra encarnação. Os cães, ao contrário de nós, seres humanos, que não escolhemos os pais, escolhem os seus donos e deles se apoderam. Assim, Laura fez comigo. Ela mal cabia na palma da minha mão quando a peguei pela primeira vez, com quarenta e cinco dias de nascida. Seus pelos castanhos e seus inexplicáveis olhos verdes, me conquistaram de imediato e naquele mesmo dia ela passou a dormir no meu quarto.

Era sábado, e eu, músico da noite, costumava chegar tarde em casa, principalmente nos finais de semana. O amigo dormia seu sono despreocupado, o sono dos ricos, e Laura, talvez estranhando a ausência do calor materno, de quem estava recém separada, não parava de chorar, trancada na área de serviço do apartamento. Depois de várias tentativas inúteis para acalmar a coitadinha e fazê-la dormir, resolví forrar o chão do meu quarto com folhas de jornal e levei Laura pra lá, dentro da sua caixinha de sapatos, que lhe servia de berço. Assim ela determinou o seu território de sossêgo. Ali ela escutava música todos os dias, quando eu estava praticando ou ensaiando alguma peça nova. Na porta daquele quarto, ela esperava pacientemente todas as noites pelo seu dono, quando ele voltava do trabalho, pois por outra estranha coincidência, desde que Laura chegou na minha vida, os shows passaram a ser mais freqüentes e até arrumei um emprego fixo, tocando de segunda a sexta, numa grande rede hoteleira.

Laura foi o vento bom que soprou a minha vida com força. Eu acordava feliz, Laura pulava em cima da minha cama e me sorria balançando o rabo, então eu a levava para passear. Todos os dias era assim, tomávamos o café da manhã juntos e íamos passear na lagoa perto de casa e brincar com os outros cachorros e os seus pares. Se eu adoecia, e isso graças a Deus era raro acontecer, ela não saía do pé da minha cama e adoecia junto comigo. Nos cuidamos, um do outro, com amor e dedicação, até onde o ciúme do seu suposto dono permitiu. O plano dele havia naufragado no nosso amor humanamente canino. Eu agora estava mais poderoso do que nunca, até carro havia comprado e levava Laurinha para passear de carro sempre que podia. Eu era o dono que Laura escolhera. Ao invés de se aliar a nós, ele, o amigo, se voltou contra mim, mal me dirigindo palavra e olhar, numa tentativa inútil de me humilhar, pelo abandono da sua cadela e pelos aluguéis atrasados do passado, por não conquistar nada na vida, sequer o amor do cão que lhe fora dado de presente um dia.

Defeitos carrego comigo de sobra e se tem uma coisa que eu não suporto é humilhação. Também sou vingativo, comigo não tem perdão, sou ruim mesmo, principalmente quando se trata de salvar a minha pele, ferida em meu orgulho. Meu amigo passou a implicar com tudo, sempre alegando que aquela casa lhe pertencia, que a cadela era dele, que me havia sustentado anos a fio e todas aquelas coisinhas miúdas que os pobres de espírito carregam consigo. Eu aturei até onde deu, única e exclusivamente por amor a Laura, afinal eram três anos e dois meses de um amor fiel e divertido, mas agora, àquela altura, eu podia alugar um apartamento só para mim, tinha emprego fixo, bom salário e assim o fiz. Fui embora daquela casa sem olhar para trás, jurando nunca mais passar pela porta daquele prédio.

O tiro atingiu em cheio o coração de Laura. Amigos em comum me contaram depois, que ela teve um câncer nos ovários, mas que sobreviveu à cirúrgia para extirpá-lo com sucesso e bravura. Câncer é doença causada por um ressentimento profundo, uma forte saudade, uma dor irreparável, uma grande traição mal assimilada, assim explicam os místicos. Laura se sentiu traída por mim e resolveu se vingar. Laura teve um câncer para que eu não o tivesse. Me contaram também que ela tentou o suicídio, escapando da guia do seu dono e se atirando no meio dos carros algumas vezes, como se estivesse querendo dizer, “não, eu não te quero, não foi você que eu escolhi”.

Eu sigo tentando salvar a minha pele com a coragem que tenho e se for preciso, com alguma dose de covardia também, como o ato covarde de abandonar um grande amor sem lhe dizer adeus, nem olhar para trás. Passados dez anos da nossa separação, a saudade não diminui, mas entre eu e qualquer outra coisa, farei sempre a escolha por mim, não fui feito para me sacrificar por nada, nem por ninguém. Entretanto, jamais esquecerei este amor que tive e agradeço aos deuses por aquele presente em minha vida. Por causa dela, hoje guardo permanentemente forte, o carinho e o afeto pelo melhor amigo do homem, e sempre me pergunto, todas as vezes que eu me lembro dela, “cadê ela, cadê Laura, o meu amor cadela”.

O AMOR É UMA MENTIRA

TIRAS DE PAPEL PICADO

ATIRADAS DE UM ARRANHA CÉU

NO CORAÇÃO DA CIDADE.

FACHADA DE NEON

CHÃO DE POLIURETANO

ESPELHOS NAS PAREDES

E FÍGADOS DE FIBRA DE VIDRO

JURANDO ETERNIDADE

ATÉ QUE OUTRA CONTA BANCÁRIA

OS SEPARE.

UMA MENTIRA SEM PUDOR

COM PROMESSAS DE FINAL FELIZ

OLHOS DE MERETRIZ

E LÍNGUAS DE SERPENTE.

LAMBENDO

RELAMBENDO

MONTANDO

DESMONTANDO

REMONTANDO

LABAREDAS

BRASAS

CINZAS.

FEIÚRA AMBULANTE

Desde o primeiro minuto, feiúra ambulante compreendeu que a vida é uma mentira, a começar pelo seu nome, “Artemônio”. Quando a parteira viu aquele recém nascido que ela acabara de trazer ao mundo, berrou:


- É mentira! Isso só pode ser arte do demônio.

A mãe quando olhou a cara do seu bebê, desmaiou e ao voltar a si não teve dúvidas, batizou a criança com aquele nome, Artemônio, um nome inventado, como tantos que existem por aí, especialmente em Salvador da Bahia, terra natal daquela feiúra. Seu pai sumiu no mundo, jurando que aquilo não era filho seu, de jeito nem qualidade.

Artemônio nasceu com dois olhos, duas orelhas, um nariz e uma boca, como qualquer ser humano aparentemente normal, pequenos detalhes no entanto, faziam a diferença. Pra começar, o troço saiu de dentro da mãe, não pela cabeça, como é comum, mas a parteira teve que puxa-lo para fora, pelos pés. Os olhos já estavam bem abertos, vesgos, um quase por dentro do outro de tão vesgos que eram, de forma que nunca olhavam para frente, sempre para o centro. O nariz adunco, curvo, daqueles de bruxa das estórias em quadrinho, apontando para o chão, e acentuando-se em tamanho à medida que o tempo passava. As orelhas eram pontiagudas, dos três lados, pareciam dois triângulos grudados a um crânio maior do que o normal. Um verdadeiro cabeção. Ao nascer, o pequeno Artemônio não chorou, ao contrário, sorria um sorriso esquisito que emitia um som semelhante a um gato no cio, deixando à mostra, na sua boca quase banguela, o dente canino superior direito, já nascido e bem criado.

Com essa cara mal construída, logo que ele começou a fazer as suas primeiras aparições públicas, aos sete anos de idade, ganhou da vizinhança o apelido de feiúra ambulante, que Artemônio carregou com orgulho pelo resto dos seus dias. A cara de feiúra, sua mãe pôde guardar em segredo por sete anos, só os mais íntimos, os da família, tinham acesso aquela deformidade que crescia feliz e contente, como se não fosse com ele o acontecido. O dente canino superior direito foi arrancado umas quatro vezes, mas voltava a crescer de novo, ainda maior, de maneira que depois da quarta tentativa de extirpar a anomalia, sua mãe desistiu do feito e feiúra seguiu pela vida exibindo aquele dentão pontiagudo, que não cabia na boca e se lhe escapava pelo canto dela.

É mentira! Esta era a reação de espanto mais comum que todos tinham ao se deparar com feiúra ambulante. Esta foi a primeira coisa que os seus ouvidos aguçados escutaram e este passou a ser o bordão da sua vida. Como as crianças aprendem por repetição, tudo aquilo que escutam e vêem, assim como os papagaios, Artemônio, passado algum tempo escutando aquela expressão sempre que alguém se deparava com ele, decodificou aquelas palavras como uma saudação, um “olá”, “como vai você”, de forma que sempre que encontrava alguém, antes que a pessoa abrisse a boca, ele mandava um sonoro “é mentira”, ao invés de “bom dia”, “boa noite” ou coisa que o valha. Já adolescente, quando o povo já estava acostumado com aquilo e lhe saudava “oi feiúra, como vai?”, ele respondia contente:

- É mentira!

O segredo mais bem guardado no entanto, só a mãe e a parteira, que morreu de depressão, logo depois de fazer o parto de feiúra, sabiam, além do próprio é claro. Artemônio nasceu com um sexo descomunal, comprido, fino e com duas cabeças, portanto além de ver o mundo aos pares, devido a sua zarolha exagerada, ele também urinava por dois e quando veio a adolescência, aos dez anos de idade e o seu pau mal cabia dentro das calças, ejaculava duplo, pelas duas cabeças, logo, a vida de feiúra era por assim dizer, um gozo duplicado. Com o tempo, veio o vício da masturbação e a este prazer, ele se entregou até conhecer Milsabores.

Maria Del Milsabores, era filha de ciganos chineses, tinha os olhos grandes esverdeados, linda. Os seus peitos e bunda eram enormes, redondos, fartos. Maria gostava de botar tudo o que via na boca. Milsabores não havia passado da fase oral, chupava os dedos da mão e dos pés, lambia tudo que passava diante dos seu olhos, tudo ela queria provar, sentir o sabor e quando conheceu Artimônio, foi paixão à primeira vista.

Quando ele botou os seus olhos trocados em cima dela e viu quatro peitos deliciosos dando sopa, logo gritou:

- É mentira!

Ela enxergou de cara aquele volume imenso por dentro das calças largas que ele usava e nem percebeu a cara feia que ele tinha. Então caíu de boca na cobra de duas cabeças de feiúra ambulante e ele nos peitos maravilhosos dela. E os dois seguiram pela vida afora jorrando juntos o leite de sua cobra e peitos, numa prova inequívoca de que o amor é uma mentira, pois quem ama o feio, bonito só lhe parece se este tiver muito dinheiro, e este não era o caso do personagem em questão, além do mais, não existe pênis com duas cabeças nem ninguém tão horripilante como o sujeito acima descrito, tampouco ciganos chineses, de olhos grandes, esverdeados. Portanto faça como Artemônio, se alguém lhe disser algum dia que te ama, olhe bem nos olhos da criatura e responda:

- É mentira!

O CIÚME DA BUCETA

SEUS GRANDES E PEQUENOS LÁBIOS

ME ENGOLEM A SECOS E MOLHADOS.

MEU CORPO SUADO

DE TANTO ESFORÇO E TENTAR

SE ESVAI INÚTIL

QUERENDO PARIR O MUNDO

PRÁ TE DAR SORRINDO

E ME QUEDAR A TEUS PÉS

ALTIVO E SERENO

COMO SE FOSSE POSSÍVEL

SE QUEDAR AOS PÉS DE ALGUÉM

ALTIVO E SERENO.

SEUS GRANDES E PEQUENOS LÁBIOS

RIEM DE MIM

DA MINHA ESTUPIDEZ E INUTILIDADE.

QUE CIÚME RETADO

DA SUA BUCETA ORDINÁRIA!

BURACO NEGRO CHEIO DE LUZ

FEITO PRA JORRAR LUZ E CUSPIR FOGO

POR ESSE MUNDO DE MEU DEUS.

SEM BUCETA O MUNDO É NADA!

DE POSSE DO GOZO DESSE CIÚME RETADO

DECLARO O MEU DESEJO INFINDO

DE TER GRANDES E PEQUENOS LÁBIOS

E BOCAS PRÁ GRITAR BEM ALTO

O MEU PRAZER INTEIRO

E LÍNGUAS PRÁ TE LAMBER

NOS TEUS LÁBIOS GRANDES E PEQUENOS

E DENTES PRÁ TE MORDER

TE MASTIGAR

TE DEGLUTIR

E ME PERMITIR EXORCIZAR

O CIÚME RETADO QUE EU TENHO

DA SUA BUCETA ORDINÁRIA.

A DUPLA CERTINHA


Um gostava de laranja e o outro de verde limão, até aí tudo bem, pois o que seria do pêssego se todos gostassem da maçã? Acontece que quando chegava o carnaval, um queria cair no samba e o outro ver pela televisão, nada demais até então, liberdade de direitos acima de tudo, afinal eles eram a dupla certinha, feitos um para o outro, pois tinham a mesma altura, a mesma pele morena, um pouco mais clara que a do outro, mais ainda assim morena e os narizes, de tão parecidos que eram, pareciam saídos da mesma fornalha. Os nomes tinham a mesma inicial, que rimava o de um com o do outro e até o sobrenome era igual. Incrível esta dupla certinha que de certo nada tinha afinal. Um guardava datas com precisão, não lhe escapava um aniversário, fosse de amigo, parente ou irmão, nascimento, morte, atropelo e inauguração, ele sabia de cor, dia, mês e ano e não tinha discussão. O outro ao contrário, se esquecia de tudo que fosse festejado, geralmente à dois, ou em família. Natal, ano novo, dia santo e feriado, dia dos namorados, tudo isso ele fazia questão de dizer que não via. Um falava pelos cotovelos, parecia que tinha engolido um rádio e cheirado carreiras noites inteiras. O outro guardava tudo calado e escutava com aparente paciência os monólogos da outra parte da dupla, que não perdia nenhum detalhe da sua dissertação, cheia de imaginação e força. Um se prendia a detalhes, enquanto o outro voava no abstrato. Um sonhava alto e o outro comprava pano barato, pra economizar nas contas, se equilibrar pro futuro, pois enquanto um planejava tudo, o outro dava saltos no escuro. Um comia carne vermelha, fritura e sementes de tomate. O outro tomava mel de abelhas, vitamina de banana com aveia e chocolate. Um adorava futebol, decorava as tabela dos campeonatos, sabia todos os resultados, não perdia os gols da rodada por nada deste mundo e era tricolor roxo. O outro era rubro negro. Um gostava dos dias ensolarados, desde que ele estivesse na sombra, com bloqueador trinta, grama e cadeira. O outro queria o sol fervendo na cara, a beira do mar, cerveja e areia. Um só tomava banho frio, dizia que fazia bem a pele e a circulação, coisa que aprendera com o avô materno, ainda criança e nunca mais esquecera, nem deixara de tomar o seu banho gelado diariamente. O outro ficava horas debaixo do chuveiro quente, dizia que o vapor quente relaxava, e assim ficava, se esquecendo do tempo. Um adorava viajar, comprar passagem e voar, especular o novo, o infinito. O outro acendia um baseado. Um era um samba light, guaraná com bossa nova. O outro rock and roll, som alto na caixa e cachaça com coca cola. Um vivia ligado e o outro nem dava bola. Um era um aquário cheio de peixes e o outro era mais um peixe dentro daquele aquário. Mas um pensava no outro todos os dias e o outro também. “Um amor que existia e que só podia ser explicado, se acreditarmos na possibilidade da alma e do espírito”, como um escreveu para o outro um certo dia. Um amor que nunca se encontrava, pois se um chorava, o outro sorria, se um caminhava, o outro corria, quando um se alongava o outro se encolhia, enquanto um despertava, o outro adormecia e sonhava os seus sonhos, separados um do outro, pois mesmo quando dormiam juntos, sonhavam sonhos separados. E assim sucessivamente, dia após dia, os dois seguiam se amando, estivessem aonde estivessem, cada qual no outro lado da sua própria linha, pois afinal eles eram a dupla certinha.

O PAU DE CARRARA

PAU

PAULEIRA

PORRADA

TEM O PAU DE SÊBO

E O PAU DE ARARA

TEM ATÉ MESMO

O PAU DE CARRARA.

MARMÓREO

BRANCO

QUASE ROSADO

LONGO

PERFEITO

SEM CIRCUNCISÃO

BICO OU DEFEITO

QUANDO EM REPOUSO

QUASE INANIMADO

AINDA ASSIM MANTEM

SUA BELEZA RARA

PAU

PAULEIRA

PORRADA

TEM O PAU DE SÊBO

E O PAU DE ARARA

MAS BONITO MESMO

SÓ O PAU DE CARRARA.

VIA SEDEX

Pedro e Bruno se conheceram num final de tarde, dentro do banheiro de um cinema pornô, no centro do Rio de janeiro. Cinemas como aquele são comuns nas grandes cidades, seus freqüentadores são pessoas de todas as clases sociais, homens de negócio, estudantes, garotos de programa, travestis, uns poucos casais de namorados, homossexuais convictos, outros nem tanto, todos entretanto com um único objetivo em comum, sexo. O que está sendo exibido na tela, muitas vezes é o que menos importa, já que a diversão maior acontece mesmo é na platéia, ou nos banheiros.
Bruno era casado, pai de quatro filhos, empresário bem sucedido, um tipo atraente sem ser bonito, branco, seus metro e setenta de altura, magro, beirando os quarenta e entrou naquela sala de projeção atraído pelo anúncio de “DOIS FILMES PORNÔS TODOS OS DIAS”. Bruno ficou curioso, tivera um dia tenso e queria relaxar, conhecer algo novo, diferente, não estava necessáriamente em busca de aventura, mas instigado pela curiosidade masculina, resolveu entrar e logo percebeu que a imensa maioria das pessoas ali presentes eram do sexo masculino também. Uma vez lá dentro, Bruno se dirigiu ao banheiro, estava nervoso e queria mijar, sentia uma sensação adolescente, que há muito não sentia, pois estava transgredindo a ordem da pacata e previsível vida que levava, da casa para o trabalho, do trabalho para casa, as vezes uma pizzaria com a mulher e os filhos, futebol no final de semana com os amigos, ver o Fluminense jogar no maracanã de vez em quando, e uma ou duas vezes por semana, fazer amor com a patroa, com quem era casado há mais de quinze anos.
Assim que entrou naquele banheiro mal iluminado, Bruno percebeu uma movimentação estranha, lenta, esfumaçada. Vários homens em atitude suspeita, tensa, desconfiada, se revezavam nos mictórios e nos dois únicos reservados do lugar. Bruno esperou que um dos reservados desocupasse e quando dois rapazes saíram lá de dentro, ele entrou e mijou. Quando terminou e deixou o reservado, deu de cara com Pedro, um moço que aparentava seus trinta anos, moreno, corpo atlético, um pouco mais baixo que ele, e que estava plantado na porta entreaberta do reservado, observando Bruno se aliviar. Os dois se encararam rapidamente e Pedro entrou, deixando a porta também entreaberta. Bruno não conseguiu sair daquele banheiro de imediato, estava preso por uma estranha excitação que nunca sentira antes e ficou ali, em pé, diante da porta entreaberta aonde podia ver o corpo de Pedro na penumbra, olhando para ele, com o pau pra fora, como se estivesse mijando. Bruno começou a suar frio, tremia da cabeça aos pés, tinha a boca seca, seu o coração batia num ritmo acelerado. Foi quando percebeu que Pedro estava excitado, o pau duro, e fazia sinal com a cabeça para que Bruno entrasse naquele pequeno quartinho.
Sem racionar, sem saber porque, num ímpeto, Bruno entrou e assim que estava lá dentro Pedro fechou a porta e a trancou por dentro, em seguida, abriu a braguilha da calça de Bruno, que já estava excitado, e tirou o pau dele pra fora, começando a masturba-lo lenta e suavemente, depois se abaixou e engoliu aquele pau branco, rosado, marmóreo, com boca gulosa. Bruno se esqueceu do mundo por uns segundos, estava tonto, deliciado, nunca ninguém o havia chupado daquele jeito. Quando já estava quase gozando, Pedro se levantou e segurou o pau de Bruno com força, impedindo que o gozo saísse, depois tentou beija-lo na boca. Bruno afastou o rosto. Pedro então colou Bruno contra a porta e sussurrou dentro do seu ouvido:
- Meu nome é Pedro, gostei de você, vamos sair daqui, eu moro aqui perto, moro sozinho e vou fazer você gozar como você nunca gozou na vida.
Bruno estava cego de tesão, um tesão animal, tinha vontade de gritar, de bater naquele cara que o imprensava contra a porta do reservado escuro. Ele sentia o corpo de Pedro colado ao seu, quente, transpirando, o pau do outro latejando nas suas pernas, por sobre as calças frouxas, a respiração do outro ofegante no seu pescoço. Ele disse não com a cabeça, a voz lhe faltava, mas Pedro o apertou ainda mais forte contra a porta, com uma mão segurava firme o seu pau enquanto que com a outra pegou a mão de Bruno e levou até ao pau dele. Bruno não resistiu e sentiu o pau macio e rijo de Pedro latejando em sua mão. Todo homem é um heterossexual convicto até o dia em que ele pega no pau de outro homem.
Pedro era um jornalista desempregado, que vivia de pequenos bicos em agencias de publicidade sem expressão ou escrevendo artigos para jornais independentes. Ele Morava sozinho num apartamento conjugado, alugado num prédio antigo, em um bairro próximo ao centro da cidade. Os dois saíram do cinema para o apartamento de Pedro que cumprira o que prometera, fizera Bruno gozar como nunca havia gozado antes. De todas as formas de amar eles se amaram e os encontros foram se repetindo sucessivamante, sempre no apartamento de Pedro, pois era mais seguro para Bruno, longe do bairro em que ele morava e também longe da sua empresa. A única condição que Bruno impusera ao seu amante é que ele nunca daria ao Pedro, nem telefone, nem endereço, pois queria manter o seu casamento e a sua família a salvo daquela loucura. Apenas o Bruno procurava o Pedro, apenas o Bruno ligava para o Pedro, e aparecia quando queria e podia. Pedro aceitou o jogo, pois Bruno o ajudava nas despesas da casa, pagava as contas, fazia o mercado, enchia Pedro de presentes e Pedro, foi se acostumando àquelas comodidades que o seu amante lhe proporcionava.
Tudo na vida é secreto, mas até o segredo mais fundo, mais cedo ou mais tarde sempre é descoberto. Bruno estava totalmente transtornado com a nova vida, relaxou nas precauções, excedeu horários, que passaram a ser cada vez mais confusos. Sua mulher acostumada à boa vida que o marido lhe dava, passou a ficar desconfiada. Por várias vezes não encontrava o marido no escritório em horário de expediente, ele chegava sempre muito tarde. Era uma amante, ela não tinha dúvidas. Encostou o marido na parede. Ele negou, mas as suas desculpas não convenciam. Ele não procurava mais a mulher e ela agora já estava convicta de que o marido tinha outra. Silenciosamente passou a seguir os passos do marido por conta própria, tinha tempo de sobra para isso. Ela não queria perder o status que aquele casamento lhe dava para outra e apertou a vigilância, controlando horários, as ligações telefônica, checando a memória do celular do marido religiosamente. Nada. Nenhuma pista concreta para aquela mudança radical no comportamento do esposo. Passou então a seguir os passos dele ainda mais de perto. Ele saía, ela dava um tempo, pegava o carro e saía atrás. Ela dava horas de plantão na esquina da rua da empresa da família, esperando que ele saísse e o seguia, sem que ele percebesse que estava sendo seguido.
Finalmente ela chegou ao endereço que ele repetia todos os dias sem falta, inclusive aos sábados quando ele dizia que ia jogar futebol com os amigos, inclusive aos domingos, quando ele dizia que ia ao maracanã ver o Fluminense jogar e era dia de Flamengo e Vasco. Todos os dias ele ia ao mesmo endereço, um prédio antigo, num bairro próximo ao centro da cidade.
De repente Bruno sumiu. Não ligava mais, não aparecia mais e como Pedro não tinha nem telefone nem endereço do amante, ficou a ver navios. Passaram três, quatros dias e nada, Bruno sumira sem deixar rastro. Não tinha havido nehuma briga, nenhum desentendimento, nada, tudo estava indo normalmente bem, sem conflito e sempre com muito prazer para os dois. Pedro estava pirado, procurava e não encontrava uma razão lógica para o sumiço do seu amante.
Passado uma semana do desaparecimento de Bruno, Pedro chega à portaria do prédio onde morava e o porteiro lhe entrega uma caixa do sedex endereçada a ele, Pedro de tal. No remetente, um nome que ele desconhecia, Maria de tal. Pedro recebe a caixa e sobe até o seu apartamento, curioso por saber o que ela continha. Ao chegar em casa Pedro começa a abrir a caixa cuidadosamente e logo sente um cheiro forte de formol. Dentro da caixa um vidro de maionese envolvido num papel branco e colado ao vidro, um bilhete escrito com letra bem desenhada, provavelmente de mulher, que dizia: “ELE LHE DEU PRAZER E ME DEU QUATRO FILHOS LINDOS. AGORA ELE NÃO TEM MAIS SERVENTIA NEM PARA VOCÊ NEM PARA MIM”. O coração de Pedro gelou. Aos poucos ele foi descolando o papel grudado ao vidro de maionese e descobrindo o seu escabroso conteúdo. Era o pau de Bruno, cortado com saco e tudo, embebido em formol e enviado para Pedro, num vidro de maionese, via sedex, provavelmente pela viúva do seu ex-amante.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

RECEITA PARA MATAR O AMOR

DUAS XÍCARAS DE RANCOR

TRES COLHERES DE SOPA DE ÓDIO EM PÓ

MEIA TIJELA DE MÁGOAS DESIDRATADAS

UM COPO CHEIO DE PALAVRAS FEIAS

DAQUELAS BEM DURAS

DAS QUE HUMILHAM

MISTURE TUDO COM A CARA AMARRADA

A MAIS FEIA QUE TIVER

E MANTENHA SEMPRE A CULPA NO OUTRO

PARA DAR LIGA CUSPA

DEPOIS BATA

BATA ATÉ FICAR BEM AMASSADO

ENTÃO LEVE AO FORNO E PRONTO

DEIXE QUEIMAR.

(SIRVA BEM FRIO)

NUNCA SE SABE O QUE VEM PELA FRENTE

Ela era uma mulher esbaforida, sempre atrapalhada com os seus múltiplos afazeres, pois a ela apetecia fazer mil coisas ao mesmo tempo, desde que meninozinho, seu gato de estimação, se atirou pela janela e levou com ele o seu último namorado, que na tentativa de segurar o gato pelo rabo, também escorregou pela janela, oito andares abaixo, bem diante do seu nariz, na sala do seu apartamento, como se tivessem combinado os dois, agora! um, dois, tres, já! Desde então, ela decidiu pensar e fazer mil coisas ao mesmo tempo, para se esquecer do tempo e daquele dia em que ela se viu privada de seus dois grandes amores para sempre, meninozinho e o seu último namorado.
Lá se vão doze para treze anos que ela se via nessa constante agitação diária. Se tinha que passar a roupa, o fazia já pensando na hora que teria que ir para o curso de corte e costura e no telefonema que teria que dar para a mãe para lembrar-lhe de não esquecer de tomar os remédios. Ao mesmo tempo preparava o almoço pensando no que iria comer à noite e na manhã seguinte, no café da manhã. Se ia ao banheiro usar o vaso, já aproveitava para escovar os dentes e comia vendo televisão, trabalhando no computador e fazendo as unhas, tudo ao mesmo tempo. Se ia à caça, partia pronta, armas em punho, vestida para matar, camisinhas com espermicida na bolsa, spray de pimenta, tesourinha de unha e outra cirúrgica, que roubara da casa da irmã médica há anos e que cortava tudo com mais facilidade, pois era cirúrgica afinal, um rolo de papel higiênico, uma calcinha reserva, boné, toalha de praia, uma meia peruca ruiva, para o caso de precisar disfarçar a identidade, e uma fantasia de baiana, que era a sua fantasia favorita, dar pro primeiro que aparecesse, vestida de baiana do acarajé, de modo que quando ela saia pra caçar, levava o tabuleiro inteiro.
Nunca se sabe o vem pela frente, pensava ela entre os seus mil e um pensamentos diários. Ela não tinha mais família, lhe restou apenas uma mãe doente e meio surda,que tomava remédios para controlar a pressão, o colesterol, a tireóide, a diabetes, a puta que pariu. Ela fazia questão de controlar os horários de toda essa farmácia, que a pobre mãe viúva carregava vida afora e sabia de cor e salteado a posologia de cada um deles. Antes de se deitar ela ligava pra mãe, que morava no apartamento ao lado e passava a limpo todo aquele arsenal.
- Mamãe, a senhora tomou as pílulas das quinze horas hoje? e as das 22? lembre-se de que as das 23:30 a senhora tem que tomar com leite, pra não atacar a úlcera ouviu bem?
Amanhã... bem, amanhã tudo de novo, lavar, passar, escovar, limpar, corte e costura, cozinhar, computar, telefonar pra aqui, pra ali, pra acolá, ver todos os filmes da tv, dez minutos de cada um e sempre com o rádio ligado ou o som no repeat, tocando o mesmo cd, sem esquecer de dar uma passadinha por todos os programas de fofoca da tarde, tudo ao mesmo tempo e agora e ainda se desse, arrumava um tempinho pra ver se encontrava alguém que quisesse comer o seu acarajé. Fazia tempos que ela não dava pra ninguém vestida de baiana, a última vez foi pra um motorista de taxi que ela pegou na Praça da Sé e levou o sujeito lá pros lados da Ribeira e ali mesmo, dentro do taxi, ela trocou de roupa e deu como uma desesperada, toda paramentada, com seus colares, pulseiras e balangandãs, pra aquele taxista gordo, cheirando a alho. Ela já tinha dado pro porteiro, na escada do prédio, pro carteiro, pro entregador de água, mas tudo rápido sem conversa, sem fantasia de baiana, que é quando ela se sentia poderosa, por cima de todas aquelas saias rodadas, metida naquele turbante ordinário e amarelecido pelo tempo. era assim que ela gostava de dar, vestida de baiana.
Nunca se sabe o que vem pela frente. Ela, que perdera a única irmã vítima de bala perdida, que viu o seu gato de estimação e o seu último namorado sumirem janela abaixo, no mesmo dia, hora e local, ela que só tinha uma mãe surda e medicamentosa, ela que estava aposentada há quatro anos, mas que vivia ocupada com mil e um afazeres, pensando em mil coisas ao mesmo tempo, ela que pensava em tudo, jamais poderia imaginar que naquela manhã de domingo fosse dar de cara com o amor da sua vida. Logo naquela manhã, quando ela estava desprevenida, sem spray, sem camisinha, sem fantasia de baiana, justo naquela manhã e daquela maneira, ela deu de cara com Altair.
Ela saiu cedo para comprar pão e leite na padaria da esquina, jogo rápido, pois teria que voltar logo, para ligar pra mamãe, lembra-lhe dos remédios, botar a água do café pra ferver, ligar o rádio, a tv, o computador, etc, etc, portanto não podia demorar. Foi quando ela tropeçou em Altair, um rapaz forte, alto, de voz aveludada, na fila do caixa da padaria, enquanto ela pensava em mil coisas. Altair se aproximou e disse quase ao pé do ouvido dela:
- A senhora se esqueceu de amarrar o tênis, pode tropeçar e cair se não tomar cuidado.
Em seguida, antes que ela lhe agradecesse, que lhe dissesse que estava pensando em mil coisas, que estava com pressa e nem reparara em amarrar o tênis, Altair se abaixou e o fez, de forma delicada e firme, depois a convidou para dar uma volta na praia com ele, aproveitar o sol da manhã e se ofereceu para segurar as bolsas com o pão e o leite que ela acabara de comprar. Eram seis e trinta de uma manhã de domingo começando a ensolarar, a cidade sequer despertara do seu sono de sábado e estava praticamente deserta, quando ela e Altair atravessaram a avenida da praia, olhos nos olhos, hipnotizados por aquele encontro inesperado, ela pensando em mil coisas ao mesmo tempo, ele atento àquele par de tenis que acabara de amarrar, os dois entrelaçados por seus pensamentos, não perceberam um caminhão de entregas que entrou pela avenida desgovernado, na contramão, em alta velocidade, e levou ela e Altair para o andar de cima, numa manhã de domingo que estava apenas começando. Nunca se sabe o que vem pela frente.

BAHIA, BRUXA E MADRINHA.

“TRISTE BAHIA, OH QUÃO DESEMELHANTE”
ASSIM FALOU GREGÓRIO DE MATOS
PORISSO TE ADOTEI POR UM INSTANTE
MADRASTA E MÃE
BRUXA E MADRINHA
QUE COM COLHER DE PAU E VARINHA
ORA ME ACARICIA
ORA ME BATE.
E ASSIM VIVENDO NESSE EMBATE
DANDO AS MINHAS FACES
À DOR E AOS BEIJOS
VEJO O QUE SOU
E A TUDO DESEJO
ESCUTANDO AS ESTRELAS QUE PELEJAM
POR SOBRE OS MARES AZUIS
E AS LÍNGUAS NEGRAS
COM SEUS DENTES BRANCOS ESCANCARADOS
TAL QUAL AS CARRANCAS DE SORRISO FEIO
DOURADAS NOS TACHOS DE DENDÊ
NAS MANHÃS DE SOL
E NAS MADRUGADAS
QUE É QUANDO A NOITE SE ESVAI
E AS ESTRELAS SE RECOLHEM ENCABULADAS
SUSSURANDO NO OUVIDO DO TEMPO:
NEM TANTO AO MAR
NEM MUITO AO MEIO
POIS QUANTO MAIS TE AMO
MAIS TE ODEIO.

QUANDO TUDO PARECIA PERFEITO...

Tudo parecia perfeito, Adão, Eva, o amor dos dois, o paraíso, e no meio deles, o tédio, a solidão. Eva, mais impaciente, mais entediada e mais curiosa que Adão, um dia se encontrou com a serpente e esta lhe ofereceu a maçã, que ela comeu sem oferecer resistência e por causa deste pequeno deslize feminino, foram os dois expulsos do paraíso. Tiveram então que recomeçar a vida em outras paragens, onde não houvesse nem serpentes, nem maçãs e a entediada Eva pudesse viver livre de outras tentações. Vieram os filhos, Caim e Abel. Abel, por ser o caçula era mais mimado e mais querido que o seu irmão Caim, este então, morto de ciúmes por se sentir rejeitado e por suspeitar ser filho de outra serpente que não a serpente de Adão, seu pai, matou Abel com uma pedrada na cabeça, pensando que assim se livraria do ciúme e da inveja que sentia do próprio irmão e também, porque pensava que herdaria tudo sozinho, quando seus pais partissem daquela para melhor.
Tudo parecia perfeito, até que Eva comeu da maçã, foi expulsa do paraíso com o seu Adão e pariu Caim e Abel, que foi morto pela inveja do primeiro e provavelmente, por causa disso tudo, muito mais tarde, Joel deixou Teresa para viver com Antonieta, que depois o envenenou para se casar com Honório, por ser este um rapaz rico e poderoso mas que gostava de Gustavo, que era casado com Margarida, que amava Joana, irmã de Maria Clara, que de clara não tinha nada, pois era uma preta alta e forte, que costumava dar pra todo mundo na beira do cais, onde aportam os barcos, que vêm e vão, trazendo e levando estórias, cantos e desencantos de amor, como a do amor de Adão pela sua Eva, que foi tentada pela serpente e sem resistir comeu da maçã e que depois pariu o invejoso Caim, que matou o seu irmão Abel, com uma pedrada na cabeça, pensando em herdar tudo sozinho, quando tudo parecia perfeito.

A SUBSTÂNCIA LOUCA

UMA SUBSTÂNCIA LOUCA
ENTROU PELA MINHA BOCA
E FOI ATÉ O CORAÇÃO
E ME DEIXOU TONTINHO
QUASE ROXO
AZUL MARINHO
UM VERDE PÁLIDO FUGAZ
A SUBSTÂNCIA LOUCA
É A LOUCURA POUCA
QUE ME DEIXA EM PAZ
ME SOBE UM FRIO NAS COXA
ME APARECE UMA MANCHA ROXA
FICO RUBRO AO PENSAR
NA SUBSTÂNCIA LOUCA
ESSA LOUCURA POUCA
DO MEU CORAÇÃO
SÃO DÚZIAS DE CAMÉLIAS
LÍRIOS
DÁLIAS
VIOLETAS
ROSA CHOQUE E LILÁS
E ENTRE O MEL E A SOPA
ENTRE O BOTÃO E A ROUPA
ENTRE O QUE NÃO FICOU PRÁ TRÁS
ENTRE O QUE ESTÁ NA FRENTE
ENTRE O BICHO E A GENTE
NUNCA PARE DE ENTRAR

A SUBSTÂNCIA LOUCA IÁIÁ
A SUBSTÂNCIA LOUCA IÁ
QUERO NUM BALAIO GRANDE
UM MONTE DELA

Letra e música de Ricco duarte, gravada e regravada nos cds, "Tudo é Música", "O menino buliçoso" e "Bossanova blue"


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

TUDO COMEÇOU NUMA LONGÍNGUA QUARTA FEIRA DE CINZAS...

Tudo começou numa longíngua quarta feira de cinzas, em Salvador, na Bahia, de todos os sons, na rua dos artistas, uma simplória rua no bairo do Garcia, de todos os sambas, bairro de Riachão, Pepeu Gomes e da escola de samba baiana mais famosa dos tempos pré axé, a Juventude do Garcia, que certamente naquela quarta feira deveria estar comemorando mais um campeonato. Foi naquele dia, um seis de março de mil novecentos e antigamente, que eu cheguei ao mundo, pelas mãos de dona Leonor, uma parteira conhecida da familia que trouxe ao mundo cinco dos seis filhos que seu Eduardo e dona Nalva botaram no mundo. Nessa rua de chão batido, cresci escutando os primeiros sons, que vivem na minha alma até hoje, como o som dos atabaques do terreiro de candomblé, que ficava nos fundos da nossa casa e o som dos Lps da Dalva de Oliveira e da Angela Maria, que não saíam da vitrola, uma peça gigante e respeitadíssima naquela casa, que ficava num canto da sala de jantar, imponente, e que por ali, por aquela vitrola, passearam também, "o casamento da dona baratinha", "festa no céu", "o gato de botas" e outras estórias infantis que o meu pai comprava em forma de disco, para colorir a nossa infância, embora ele mesmo fosse um exímio contador de estórias da carochinha, coisa que ele sabia fazer como ningúem. O som dos atabaques, as vozes mágicas de Dalva e Angela e as estórias que o meu pai contava, foram as substâncias, loucas, que nortearam a minha vida.
Quando eu não estava escutando música ou estórias da carochinha, estava lendo, ou imaginando as minhas próprias estórias, que eu recusava em colocar no papel, pois eram impróprias para menores. Jogar bola com os outros garotos, colocar os pés no chão batido, nem pensar. Fui uma criança velha para uns e maricas para muitos. Preferi simplesmente não ser criança. Era chato falar fino, usar calças curtas e não ter autonomia, voz de comando, então resolvi ser artista quando crescesse.
Não sei se por ter nascido num rua com um nome como esse, "dos artistas", que desde pequeno decidi que seria um deles. Bom, encurtando a longa história de lá até aqui, me tornei um artista da vida. Aprendi a tocar violão com meu irmão Lula, que me mostrou as primeiras dissonantes, o samba e a música de João Gilberto, substâncias decisivas para que eu fosse a luta. Primeiro nos festivais colegiais, depois nos universitários, quando eu estudava comunicação. Depois de formado em jornalismo, vim para o Rio de janeiro. Fazer jornalismo? não, fazer música! Toquei em quase todos os bares e botecos da cidade, do Leme ao Pontal, "tomei centenas de chás de cadeira" na porta das gravadoras, com as minhas demos, gravadas em fita cassete nas mãos, e por fim, gravei dois cds independentes e tive algumas canções gravadas por outros artistas de menor expressão. Uma dureza, as contas vencendo e eu me virando nos bares da vida. Depois, cansado de me virar para pagar as contas, fui viajar pelo mundo com a minha música, violão debaixo do braço, navegando pelos sete mares do planeta, tabalhando nos navios de luxo de uma companhia de cruzeiro, tocando bossa nova e o que mais se parecesse com bossa, ou tivesse bossa.
Passados tantos anos, ainda não virei um artista daqueles que eu sonhava quando era criança, daqueles que aparece na televisão e que não pode sair na rua a não ser acompanhado de seguranças e que tais e que moram em mansões na Joatinga ou nos condominios de luxo da Barra. Mas nesses anos todos, em que eu paguei as minhas contas sempre em dia, eu me diverti pra caramba, com a minha música. Rodei o mundo, tomei porres homéricos, gargalhei e chorei a beça, amei e fui amado, vivi "zilhões" de estórias, contei e cantei outras. Escrever histórias foi uma substância que renasceu em mim, justo quando fui navegar pelo mundo, trabalhando em navios de cruzeiro. Quando me dei conta havia escrito dois romances e um sem número de contos, cronicas e poesias, que pretendo ir por enquanto, publicando por aqui, neste blog, enquanto as editoras não se animam a publicar os originais dessas "estórias", algumas impróprias para menores, inspiradas naquelas que eu imaginava quando usava calças curtas e que ainda vivem cantando na minha alma até hoje. Divirtam-se e se beber, chamem um taxi.